MP Militar solicita ao STM cassação de patentes de Bolsonaro e aliados militares
O Ministério Público Militar apresentou nesta terça-feira, 3 de setembro, uma representação ao Superior Tribunal Militar solicitando a declaração de perda dos postos e patentes do ex-presidente Jair Bolsonaro, do ex-comandante da Marinha Almir Garnier e dos generais Paulo Sérgio Nogueira e Walter Souza Braga Netto. Esta ação representa um passo crucial no processo de responsabilização dos envolvidos na chamada trama golpista, com implicações profundas para suas carreiras militares.
Entenda a diferença entre posto e patente
É fundamental compreender a distinção entre os termos posto e patente no contexto militar. O posto refere-se ao grau hierárquico que um oficial ocupa dentro da estrutura de comando das Forças Armadas, como capitão, major ou general. Já a patente é o documento oficial que atesta e garante esse posto. Caso o STM acolha as representações do Ministério Público Militar, os quatro militares serão efetivamente expulsos das Forças Armadas, perdendo todos os direitos e prerrogativas associados à sua condição.
Primeira análise de crime contra democracia na história do STM
Este caso marca um momento histórico para o Superior Tribunal Militar, pois é a primeira vez que a corte irá analisar um processo envolvendo crimes contra a ordem democrática. Os ministros do STM terão a responsabilidade de avaliar se os réus mantêm condições éticas para permanecer nas fileiras militares, com base na condenação já proferida pelo Supremo Tribunal Federal.
O processo no STM segue um rito específico que costuma levar, em média, seis meses para ser concluído. Cada representação será distribuída por sorteio para um relator diferente, o que pode influenciar o desfecho individual dos casos, embora a tendência seja que sejam julgados de forma conjunta.
Desdobramento da condenação do STF na trama golpista
A ação do Ministério Público Militar é um desdobramento direto da condenação histórica do Supremo Tribunal Federal, que considerou Bolsonaro e seus aliados culpados por liderar uma organização criminosa com o objetivo de mantê-lo no poder após a derrota nas eleições de 2022. As penas aplicadas pelo STF variaram de 19 a 27 anos e três meses de prisão, por crimes como tentativa de golpe de estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa.
A Constituição Federal prevê expressamente a declaração de indignidade para o oficialato quando um militar é condenado a pena restritiva de liberdade superior a dois anos, com decisão transitada em julgado. A punição correspondente é justamente a perda do posto e da patente, mecanismo que agora está sendo acionado pelo Ministério Público Militar.
Composição do STM e possíveis impactos da decisão
O Superior Tribunal Militar é composto por 15 ministros, sendo 10 militares e 5 civis, com a presidente votando apenas em caso de empate – situação em que o regimento prevê voto favorável ao réu. Os ministros não reavaliarão o mérito da condenação do STF, mas determinarão suas consequências para o quadro militar dos réus.
Uma decisão favorável ao Ministério Público Militar terá impactos significativos: os militares perderão o direito a receber salários, embora seus familiares dependentes continuem recebendo pensão através do instituto da morte ficta. Além disso, o desfecho pode influenciar o local de cumprimento das penas, já que os generais e o almirante estão atualmente em unidades do Exército e da Marinha.
Histórico de processos similares no STM
Nos últimos oito anos, o Superior Tribunal Militar analisou 97 processos de Conselho de Justificação e Representação por Indignidade ou incompatibilidade para o oficialato. Desse total, o tribunal determinou a cassação da patente e do posto em 84 casos, principalmente por crimes como peculato, estelionato e corrupção. Este histórico demonstra que o STM tem aplicado rigorosamente as sanções previstas na legislação militar quando constatadas violações éticas graves.
Rito processual detalhado no STM
O processo no Superior Tribunal Militar segue etapas bem definidas: após o pedido formal do Ministério Público Militar e o sorteio para um relator, abre-se prazo de 10 dias para apresentação de defesa escrita. Caso esta não seja entregue, um defensor público é acionado automaticamente. O relator prepara então seu voto, sem prazo estabelecido, seguido pelo ministro revisor. Após a solicitação de data para julgamento, o caso é submetido à apreciação do plenário. Encerradas as possibilidades de recursos, o tribunal comunica a decisão ao Comandante da Força de cada representado, tornando obrigatória a cassação do posto e patente em caso de declaração de indignidade.



