TCU suspende inspeção no BC sobre liquidação do Banco Master
Ministro do TCU suspende fiscalização no Banco Central

O ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Jhonatan de Jesus, confirmou nesta quinta-feira, 8 de janeiro de 2026, a suspensão de uma inspeção que seria realizada no Banco Central. A fiscalização tinha como objetivo apurar se a autoridade monetária agiu de forma precipitada ao decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master, ocorrida em novembro do ano passado.

Decisão gera polêmica e críticas à autonomia do BC

A medida, que havia sido comunicada previamente aos demais membros da Corte de Contas, foi formalizada em um despacho. No documento, o ministro reclamou da "dimensão pública assumida pelo caso", considerando-a desproporcional para o que classificou como uma providência instrutória corriqueira no tribunal.

A decisão do relator gerou uma série de críticas, sendo acusada de extrapolar suas funções e criar instabilidades desnecessárias no mercado financeiro. Especialistas apontam que a ação representa uma ameaça à autonomia do Banco Central como regulador do sistema financeiro.

Com a suspensão, não haverá qualquer risco de inspeção no BC pelo menos até o dia 21 de janeiro, data em que o Plenário do TCU deve se pronunciar sobre o caso.

Contexto inédito e posição do Banco Central

O caso do Banco Master estabeleceu um precedente. Antes dele, o TCU nunca havia solicitado explicações ao Banco Central sobre a liquidação de uma instituição financeira. Embora o tribunal tenha competência para verificar se autarquias cumprem suas funções, não é sua atribuição se imiscuir nos fundamentos técnicos que levam ao fechamento de um banco.

O Banco Central já se manifestou perante a Corte de Contas, deixando claro que a liquidação do Master foi "indispensável para a proteção do sistema financeiro e da poupança popular". A autoridade monetária alegou o esgotamento de todas as alternativas de mercado, a situação financeira crítica da instituição e a existência de suspeitas de crimes, hoje sob investigação.

Dados concretos ilustram a gravidade da situação do Master na data de sua liquidação, em 18 de novembro:

  • Os valores disponíveis em caixa eram dez vezes menores do que o fluxo de CDBs (Certificados de Depósito Bancário) com vencimento naquele mesmo dia.
  • O estoque de compulsórios (recursos que os bancos são obrigados a recolher) representava menos de 1% do valor exigido pelo Banco Central.

Em entrevista, o ex-presidente do BC, Armínio Fraga, reforçou a decisão: "Possivelmente o Banco Central poderia ter determinado a liquidação do Master antes. Desfazer a liquidação e devolver o banco para o dono não teria cabimento".

Isolamento no TCU e trajetória do ministro relator

Na decisão formalizada, Jhonatan de Jesus negou que sua ordem inicial estivesse eivada de omissões, como alegou o BC em seu recurso. Ele argumentou que a determinação de inspeção partiu de proposta técnica especializada, fundamentada na insuficiência de esclarecimentos para o controle externo.

No entanto, após perceber que estava completamente isolado dentro do próprio TCU e funcionava como um "para-raios" da crise do Master na Corte, o ministro decidiu suspender o envio de auditores para analisar in loco a documentação do BC.

Médico de formação e ex-deputado federal por Roraima, Jhonatan de Jesus chegou ao TCU em 2023 após uma negociação política. Seu antigo partido, o Republicanos, abriu mão de uma candidatura à presidência da Câmara e apoiou a reeleição de Arthur Lira. Em troca, ele garantiu uma cadeira no tribunal, onde pode ficar por mais de três décadas.

O caso chegou às mãos do ministro a partir de uma representação do Ministério Público, que questionava uma suposta demora do BC em encerrar as atividades do Master. O processo, porém, se transformou em um debate mais amplo sobre os limites de atuação do TCU e a autonomia do Banco Central.