
Quem diria que uma senhora aparentemente frágil, com seus causos mirabolantes, se tornaria um dos maiores símbolos de resistência humorística do Brasil? Pois é exatamente isso que aconteceu com a famosa Velhinha de Taubaté, criação genial do escritor Luis Fernando Verissimo.
Nos anos sombrios da ditadura militar, quando falar o que pensava podia significar um bilhete sem volta para o DOPS, Verissimo encontrou uma brecha inteligentíssima. Através das cartas supostamente escritas por essa idosa peculiar — que narrava encontros absolutamente inacreditáveis com figuras históricas — o autor driblou a censura e falou sobre política de forma absolutamente única.
O Nascimento de um Ícone da Sátira Política
Tudo começou nos anos 70, numa redação de jornal onde Verissimo trabalhava. A ideia surgiu quase por acaso, como essas coisas geniais costumam aparecer. A velhinha não era apenas uma personagem engraçada; era uma arma afiada de crítica social disfarçada de ingenuidade.
Ela "testemunhava" eventos históricos completamente absurdos: encontrava Che Guevara no supermercado, via Elvis Presley no ponto de ônibus, tinha casos passionais com personalidades internacionais. Tudo com uma naturalidade que fazia o leitor cair na risada — e depois cair na real sobre as mensagens por trás das histórias.
Um Retrato do Brasil sob a Ditadura
O mais brilhante? A velhinha representava perfeitamente o cidadão comum da época. Vivendo sob um regime opressor, muitos brasileiros precisavam fingir certa ingenuidade para sobreviver. Verissimo capturou essa essência e transformou em arte pura.
As cartas eram publicadas inicialmente no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, mas rapidamente conquistaram o país inteiro. Num período onde a imprensa sofria censura prévia, a velhinha conseguia passar mensagens que textos jornalísticos sérios não conseguiriam.
O Legado que Permanece Atual
O que mais impressiona é como a personagem permanece relevante décadas depois. Num Brasil ainda polarizado politicamente, a estratégia de usar humor para abordar temas sensíveis parece mais necessária do que nunca.
Verissimo, através dessa figura aparentemente frágil, mostrou que o riso pode ser revolucionário. Que uma história bem contada — por mais absurda que seja — consegue falar verdades que discursos sérios muitas vezes não alcançam.
E a velhinha? Continua vivíssima na cultura popular. Suas "lembranças" improváveis nos lembram que, às vezes, é preciso rir para não chorar. E que, mesmo nos momentos mais difíceis, a criatividade encontra um caminho.