Sócrates Nolasco lança 'Não Matarás' e analisa as raízes do antissemitismo
O teórico Sócrates Nolasco está lançando o livro Não Matarás pela editora Jaguatirica, uma obra que mergulha nas profundezas do ódio aos judeus através de uma perspectiva que une história e psicanálise. A publicação chega como um estudo aprofundado sobre como o antissemitismo se manifesta como uma expressão da 'besta' interior humana, um fenômeno tribal secular que atravessou séculos mantendo sua força intacta.
Obsessão e excesso na construção do ódio
Nolasco identifica dois elementos fundamentais que acompanham o antissemitismo: a obsessão e o excesso. Segundo sua análise, esses componentes trabalham em conjunto para transformar a imagem do judeu em algo monstruoso no imaginário social. Uma vez fundidos, eles alimentam a motivação do antissemita, que os ignora em favor do conforto de sua própria indignação.
O teórico argumenta que essa dinâmica permite reivindicar uma suposta 'justiça' que, em última instância, busca a eliminação do judeu. O excesso e a obsessão servem como mecanismos para encobrir o que realmente nutre e preserva esse ódio secular, criando uma barreira psicológica que impede a reflexão crítica.
A função do antissemitismo na civilização
Uma das teses centrais apresentadas no livro é que o antissemitismo cumpre uma função protetora para a civilização. Ele atua mascarando contradições internas e desativando a empatia, permitindo que as sociedades evitem confrontar suas próprias raízes bárbaras. Nolasco observa que a civilização raramente examina essas origens violentas ou as conexões que elas mantêm com as máscaras usadas para negá-las.
O autor destaca ainda que o judeu é submetido a um rigor de julgamento não aplicado a nenhum outro grupo humano. Esse tratamento diferenciado transforma o ódio em algo funcional: ele protege a civilização de si mesma, da 'besta' que reside em seu interior e que se manifesta em cada indivíduo quando frustrada ou interditada.
As raízes da bestialidade humana
Nolasco explora como a besta que carregamos utiliza circuitos neurais antigos, herança evolutiva que nos preparou para o ataque, o medo do desconhecido e a proteção violenta do nosso grupo contra o 'outro'. O antissemitismo, sob essa ótica, representa a ativação dessa besta primitiva: um ódio tribal que desliga a empatia e ignora a humanidade alheia.
O livro também aborda a relação entre esse ódio e a Lei social. No cotidiano, as raízes da bestialidade são ativadas pelo desconforto diante da Lei que impõe limites e se apresenta como condição para a existência da humanidade. Sem esses limites, estaríamos à mercê de um prazer sem freios, mas como preservar a ilusão de viver esse prazer sem ser visto como predador?
'Não Matarás' como tecnologia simbólica
O título do livro, Não Matarás, não é interpretado apenas como uma regra religiosa, mas como uma tecnologia simbólica de contenção da besta da qual surgiu a humanidade. Nolasco estima que aproximadamente 1 bilhão de pessoas tenham morrido em guerras ao longo da história, evidenciando a materialização dessa bestialidade na realidade humana.
A obra dissecar essas raízes para revelar os pontos de interseção entre a história coletiva e o inconsciente individual. O antissemitismo, conclui o autor, tornou-se necessário para que múltiplas contradições sejam varridas para debaixo do tapete, permitindo que as 'bestas' se sintam como 'santas'.
Através de uma análise que combina elementos históricos, psicológicos e filosóficos, Sócrates Nolasco oferece uma reflexão profunda sobre um dos ódios mais persistentes da humanidade, convidando os leitores a confrontarem as sombras que moldam nossa civilização.