
Quase cinco décadas se passaram. Quase cinquenta anos de uma verdade truncada, oficialmente registrada num papel que nunca condisse com a brutalidade dos fatos. A certidão de óbito da estilista Zuzu Angel, uma das vozes mais corajosas contra a ditadura militar, finalmente foi retificada. E olha, não foi sem uma certa luta.
O documento, que durante todo esse tempo atribuiu sua morte a um 'acidente de trânsito' na Estrada da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, agora traz a verdade nua e crua: homicídio. Sim, homicídio. A palavra soa grave, definitiva e, de uma vez por todas, justa.
Uma Longa Batalha por Uma Única Palavra
A decisão saiu de uma vara de órfãos e sucessões, sabe? Um desses lugares da justiça que normalmente lida com questões de família e herança, mas que desta vez tratou de uma herança muito maior: a da nossa memória histórica. O juiz Gustavo Moreira de Carvalho e Silva não teve dúvidas. Baseado no relatório da Comissão Nacional da Verdade e em outras provas incontestáveis, ele mandou tirar aquela versão fantasiosa do papel e colocar o que realmente aconteceu na madrugada de 14 de abril de 1976.
Zuzu não perdeu o controle do carro. Zuzu foi assassinada. Ela foi mais uma vítima de um Estado que silenciava, torturava e matava. O filho dela, Stuart Angel Jones, havia sido torturado e morto pelos agentes da repressão um tempo antes. Zuzu procurava por ele incansavelmente, cutucando a onça com vara curta, denunciando internacionalmente o regime. Tornou-se uma pedra no sapato. E pedras no sapato do regime militar eram, tragicamente, removidas.
O Peso de um Documento
Pode parecer só uma burocracia, um mero ajuste num registro empoeirado. Mas não é. É simbólico pra caramba. É o Estado brasileiro, mesmo que tardemente, através de um de seus juízes, assumindo: 'Nós erramos. Nós mentimos. Ela não morreu por acaso; ela foi morta por opressão'.
É como se aquele papel ganhasse vida e dissesse, em letras garrafais, que a versão oficial nem sempre é a versão verdadeira. Que a história precisa ser contada direito, especialmente para aqueles que não estão mais aqui para contá-la. É um acerto de contas com o passado, um suspiro de alívio para a família e um recado claro sobre a importância de não esquecermos.
O caso agora está oficialmente em aberto na 2ª Vara de Justiça e Cidadania do Tribunal de Justiça do Rio. Quem sabe isso não reacende as investigações? Quem sabe não surge um novo fôlego para tentar identificar, de uma vez por todas, os responsáveis por esse e por tantos outros crimes daquela época sombria?
Uma coisa é certa: a memória de Zuzu Angel, com sua arte e sua coragem, finalmente tem um documento que condiz com a sua história. E a história, por mais que tentem alterá-la, sempre encontra um jeito de vir à tona.