Rússia, Ucrânia e EUA iniciam negociações de paz em Abu Dhabi enquanto ataque deixa Kiev sem aquecimento
Negociações de paz entre Rússia, Ucrânia e EUA começam em meio a ataques

Negociações de paz em Abu Dhabi ocorrem paralelamente a ataques russos em Kiev

Neste sábado (24), enquanto delegações da Rússia, Ucrânia e Estados Unidos se reúnem em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, para as primeiras negociações trilateral de paz desde o início do conflito, a capital ucraniana Kiev sofreu um ataque massivo que deixou ao menos 6 mil edifícios sem aquecimento. O prefeito da cidade, Vitali Klitschko, confirmou a situação crítica, com temperaturas locais atingindo -12°C na manhã de sábado.

Ataque russo coincide com início das conversas de paz

O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia acusou o presidente russo Vladimir Putin de ordenar cinicamente um ataque maciço com mísseis justamente quando as delegações se preparavam para as negociações em Abu Dhabi. Segundo as forças armadas ucranianas, a Rússia utilizou 375 drones e 21 mísseis na ofensiva, que afetou severamente a infraestrutura de aquecimento da capital.

O presidente Volodymyr Zelensky ressaltou que o ataque é uma prova clara da necessidade de respeitar os acordos internacionais sobre fornecimento de defesa aérea. "A Rússia tenta congelar os ucranianos até a morte", afirmou Zelensky, referindo-se aos repetidos ataques contra a infraestrutura do país durante o inverno rigoroso.

Primeira reunião trilateral busca fim da guerra

As negociações em Abu Dhabi, que começaram na sexta-feira (23) e seguem até sábado, marcam um momento histórico: é a primeira vez que os três países se sentam juntos para discutir o fim da guerra, que está prestes a completar quatro anos. Sob a administração do presidente norte-americano Donald Trump, os Estados Unidos assumiram o papel de mediador principal, buscando uma solução pacífica para o conflito.

Zelensky afirmou aos jornalistas que os negociadores discutirão o controle territorial da região de Donbas, no leste da Ucrânia, considerada uma questão central. "O Donbas será discutido no formato que as três partes considerarem adequado", declarou o presidente ucraniano em coletiva de imprensa on-line.

Condições russas e avanços nas negociações

Antes do encontro, a Rússia reiterou sua exigência pela anexação de toda a região de Donbas. Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, afirmou que as tropas ucranianas devem se retirar da área como condição essencial para que Putin aceite finalizar a guerra. "É bem conhecido que a posição da Rússia é que a Ucrânia e as Forças Armadas ucranianas devem deixar Donbas", disse Peskov, mencionando uma "fórmula Anchorage" em referência ao encontro entre Trump e Putin no Alasca.

Zelensky, por sua vez, anunciou que os documentos para finalizar a guerra estão "quase prontos", após chegar a um consenso com Trump sobre garantias de segurança que serão fornecidas pelos EUA no pós-guerra. Em um post na rede social X, o líder ucraniano revelou que as negociações sobre essas garantias foram concluídas durante um encontro com Trump às margens do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.

Composição das delegações e expectativas

As negociações em Abu Dhabi não envolvem, inicialmente, os líderes dos três países, mas contam com representantes de alto nível:

  • A delegação russa é liderada pelo almirante Igor Kostyukov
  • A Ucrânia enviou seus principais negociadores, incluindo civis, diplomatas e autoridades de segurança
  • Os Estados Unidos são representados pelo enviado especial Steve Witkoff, o genro de Trump Jared Kushner e o assessor da Casa Branca Josh Gruenbaum

Steve Witkoff, que se reuniu com Vladimir Putin em Moscou na quinta-feira, indicou que um acordo pode estar próximo, afirmando que "falta apenas uma questão entre Ucrânia e Rússia" para ser resolvida. Trump também expressou otimismo, declarando: "Terminamos com oito guerras, e acredito que o fim de outra esteja vindo muito em breve".

Contexto internacional e críticas à Europa

Durante as negociações, Zelensky seguiu a linha de Trump e criticou os aliados europeus por sua inação diante do conflito. "A Europa continua sendo um caleidoscópio fragmentado de pequenas e médias potências", afirmou o presidente ucraniano, enfatizando que apenas ações concretas podem criar uma ordem global efetiva.

O encontro em Abu Dhabi representa uma tentativa significativa de diplomacia internacional, ocorrendo em um momento delicado onde ações militares e conversas de paz se entrelaçam de maneira complexa. Enquanto os cidadãos de Kiev enfrentam o frio extremo sem aquecimento adequado, o mundo observa se estas negociações trarão o tão esperado fim para um conflito que já dura quase quatro anos.