Vídeo viral de '800 presos políticos libertos' na Venezuela é #FAKE
Vídeo de 'libertação na Venezuela' é antigo e fora de contexto

Uma publicação que alega mostrar a libertação de mais de 800 presos políticos na Venezuela, cumprindo uma suposta exigência do ex-presidente dos EUA Donald Trump, viralizou nas redes sociais. No entanto, a verificação do Fato ou Fake comprova que se trata de informação falsa e enganosa.

O que diz a publicação falsa?

Na quinta-feira, 8 de janeiro, um post na plataforma X (antigo Twitter) obteve enorme repercussão, superando 783,2 mil curtidas. A legenda afirmava: "Venezuela cumpre uma das exigências do Trump: mais de 800 presos políticos foram soltos de uma vez". O conteúdo era acompanhado por um vídeo que mostra pessoas emocionadas se abraçando, com uma sobreposição de texto em inglês dizendo: "O momento em que prisioneiros políticos foram libertos na Venezuela".

Apesar de o vídeo ser autêntico e não gerado por inteligência artificial, ele foi usado de forma completamente fora do contexto temporal atual. As imagens, na verdade, documentam um evento ocorrido em novembro de 2024, cerca de um ano e dois meses antes dos recentes eventos políticos envolvendo os Estados Unidos, a deposição de Nicolás Maduro e a posse da presidente Celia Rodriguez.

A verdade por trás das imagens

A equipe de checagem utilizou ferramentas digitais para rastrear a origem do material. Através da plataforma InVID e de busca reversa com o Google Lens, foi possível identificar a fonte original. O vídeo foi publicado em 17 de novembro de 2024 pelo veículo jornalístico Canal 26 em seu canal no YouTube.

A gravação mostra a libertação de pouco mais de 100 presos políticos que haviam sido detidos por participarem de protestos contra a vitória eleitoral de Nicolás Maduro em julho daquele ano. A cena foi filmada na entrada do presídio de Tocuyito, no estado de Carabobo. A confirmação se deu ao comparar frames específicos, como um jovem de cabeça raspada abraçando uma mulher de roupa vermelha, presentes tanto no vídeo viral quanto na reportagem original de 2024.

A informação sobre essa libertação também foi noticiada pela Deutsche Welle, citando dados da ONG Foro Penal. A organização informou que, em 16 de novembro de 2024, pelo menos 107 detidos ligados aos protestos pós-eleitorais foram soltos em várias prisões do norte da Venezuela, sem contar um número indeterminado de mulheres libertadas de um presídio feminino.

Contexto político e promessas não cumpridas

A publicação falsa começou a circular no mesmo dia em que o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, anunciou que o governo libertaria unilateralmente um "número significativo de prisioneiros e estrangeiros" sob pressão americana. Entre os nomes prometidos para libertação estavam a ativista espanhola Rocío San Miguel, o ex-candidato presidencial Enrique Márquez e Rafael Tudares, genro do opositor Edmundo González.

Entretanto, a ONG Comitê pela Liberdade dos Presos Políticos da Venezuela (CLIPPVE) denunciou que essa soltura prometida "não foi concretizada de forma plena, verificável, nem transparente", colocando em dúvida o cumprimento efetivo do anúncio oficial.

O pano de fundo desses eventos são as eleições presidenciais de 28 de julho de 2024, que reelegeu Nicolás Maduro de forma contestada por observadores internacionais. A declaração de vitória sem a divulgação completa da apuração desencadeou uma onda de protestos. Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) apontou que cerca de 2,4 mil pessoas foram presas durante as mobilizações e que 25 manifestantes morreram, 24 deles por ferimentos de bala.

Portanto, a alegação de que o vídeo viral mostra uma libertação em massa recente de 800 presos é falsa. Trata-se da reapresentação de um evento antigo, usado para criar uma narrativa enganosa sobre a situação política atual na Venezuela.