Redes Sociais: Fadiga Digital e Riscos Crescem Entre Usuários Brasileiros
Fadiga Digital: Críticas às Redes Sociais Aumentam no Brasil

Redes Sociais: Entre Conexão e Exaustão na Era Digital

Nos últimos anos, um fenômeno preocupante tem ganhado força no cenário digital brasileiro: o crescente descontentamento dos usuários com as redes sociais. O que antes era visto como ferramenta de conexão e entretenimento, hoje se transforma em fonte de fadiga mental, polarização e conflitos. Críticas aos algoritmos seletivos, à disseminação de fake news e aos debates acalorados sobre futebol, ideologia e política tornam-se cada vez mais frequentes.

Vozes do Descontentamento: Depoimentos de Quem Vive a Exaustão Digital

Um amigo que preferiu não se identificar resume bem o sentimento de muitos: "Cansei de bater palmas para maluco dançar", declarou, referindo-se aos anos como usuário assíduo do Facebook. Ele completa com uma analogia contundente: "Não quero mais ficar como o violinista do Titanic enquanto aquilo lá está afundando". Outro caso emblemático é o de um ex-jogador de futebol que viu milhares de seguidores desaparecerem de seu perfil no X, antigo Twitter, sem qualquer explicação – situação que se tornou corriqueira desde a aquisição da plataforma por Elon Musk.

A Tendência das "Postagens Zero" e o Declínio do Compartilhamento

O jornalista americano Kyle Chaika, colunista da revista The New Yorker, lançou recentemente o livro "Mundo filtrado: como os algoritmos nivelaram a cultura". Em seu trabalho, ele sugere que a sociedade pode estar caminhando para o que chama de "postagens zero" – um ponto onde as pessoas comuns percebem que não vale mais a pena compartilhar suas vidas online. Pesquisas recentes corroboram essa visão, indicando que após duas décadas de redes sociais, a quantidade de compartilhamentos diminuiu consideravelmente.

Estudos mostram que aproximadamente um terço dos usuários postaram menos em 2025 do que no ano anterior, com essa tendência sendo mais acentuada entre adultos da Geração Z – aqueles nascidos entre 1995 e 2010. Essa mudança de comportamento sinaliza um cansaço coletivo com a exposição constante.

Os Impactos Psicológicos: Da Ansiedade à Distorção da Realidade

A psicoterapeuta Berenice Kuenerz, articulista colaboradora do JORNAL DO BRASIL, expõe os efeitos negativos do uso inadequado das redes: "As redes sociais expandiram enormemente a comunicação, mas, simultaneamente, abriram uma caixa de Pandora, trazendo angústia, ansiedade, insegurança e compulsão". Ela alerta que essas plataformas vendem a ideia de uma felicidade inatingível, onde tudo é belo, bom e fácil, criando uma distorção perigosa da realidade.

A atriz Paloma Bernardi vive na pele essa contradição: "Queria ser menos ativa porque ela 'pode sugar a nossa alma' se não impusermos limites", confessa sobre seu uso do Instagram. Embora reconheça o lado positivo da rede para sua carreira – permitindo conexão com fãs worldwide –, ela sofre com críticas negativas: "A internet é 'terra de ninguém'. Alguns se sentem à vontade para julgar e criticar de forma negativa, e isso de fato me machuca às vezes".

Agressões Virtuais e a Busca por Proteção Jurídica

Os problemas vão além das críticas, atingindo níveis preocupantes de agressões e ameaças. O jornalista Flávio Dias, comandante do canal "Atenção, Vascaínos" com quase 300 mil inscritos no YouTube, adota medidas drásticas: "Sou muito adepto de bloquear e tirar da convivência gente que, gratuitamente, agride". Ele mantém seu Instagram fechado apenas para familiares e evitou criar perfil no X por não suportar a forma como as pessoas interagem na plataforma.

O advogado Stimerson Raymundo de Oliveira, especializado em direito civil e do consumidor, explica que a legislação brasileira oferece proteção: "A legislação brasileira, por meio do marco civil da internet e de atualizações recentes no Código Penal, garante que invasões de dispositivos, perseguições virtuais e fraudes financeiras sejam punidas com rigor". Ele orienta vítimas a preservarem provas através de prints, salvamento de links e atas notariais, além de registrarem boletim de ocorrência – que pode ser feito online em delegacias virtuais.

O Desafio das Novas Gerações: Crianças e Adolescentes na Rede

Quando o assunto envolve menores, os riscos se multiplicam. Renata Silva Serpa Santos da Conceição, especialista em mediação escolar, compartilha sua estratégia com a filha Maria Valentina, de 13 anos: "Controlo o tempo que ela usa a tela e dispositivos, mas também me responsabilizo por oferecer outras alternativas como passeios, esportes e jogos de tabuleiro". Ela descobriu que estimular hobbies como crochê – aprendido pela filha nas próprias redes – reduz o tempo online.

A advogada Gabriela Grafanassi, delegada da Comissão de Direito da Criança da OAB/RJ em Niterói, reforça a preocupação: "Um dos temas que mais nos preocupa atualmente é o uso de celulares, redes sociais e jogos virtuais por crianças e adolescentes". Ela relata casos graves que chegam à comissão, incluindo jogos que incitam violência, automutilação e até morte, além de adultos que se passam por jovens para marcar encontros perigosos.

Empobrecimento Emocional e a Busca por Profundidade

O psicanalista Manoel Thomaz Carneiro, que coordena o curso Grupo Psicanálise para Todos no Leblon, Rio de Janeiro, observa consequências profundas: "Entre os mais jovens, observo um empobrecimento da linguagem emocional. O discurso torna-se telegráfico, funcional, quase utilitário". Ele alerta que a experiência subjetiva não encontra palavras suficientes para existir plenamente, comprometendo tanto a comunicação quanto o autoconhecimento.

Manoel Thomaz resume o paradoxo contemporâneo: "Talvez o desafio não seja rejeitar o mundo virtual, mas resgatar, dentro dele e apesar dele, espaços de demora, profundidade e presença. Sem isso, corremos o risco de permanecer permanentemente conectados e, ao mesmo tempo, cada vez mais sós". Suas palavras ecoam o dilema de milhões de brasileiros que navegam entre a necessidade de conexão e o desejo de autopreservação na era digital.