Conflito entre EUA e Irã atinge novo patamar com ameaças a infraestrutura energética
A guerra entre Estados Unidos e Irã pode atingir um novo patamar de escalada após o presidente americano, Donald Trump, reiterar suas ameaças de destruir usinas de energia iranianas. Tais ataques podem configurar crimes de guerra, segundo organizações não governamentais e especialistas em direito internacional.
Trump ameaça "Dia da Usina Elétrica" no Irã
No domingo (05/04), em uma publicação repleta de palavrões e ofensas na rede Truth Social, Trump explicitou sua frustração com a continuidade do bloqueio do estreito de Ormuz pelo Irã. O mandatário voltou a afirmar que o país enfrentará a destruição da sua infraestrutura de energia caso não libere a passagem marítima.
"Terça-feira será o Dia da Usina Elétrica e o Dia da Ponte, tudo de uma vez, no Irã. Não haverá nada igual!!! Abram a porra do Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês viverão num verdadeiro inferno - Vocês vão ver! Louvado seja Alá", escreveu Trump.
Resposta iraniana e ameaças retaliatórias
O Irã reagiu rapidamente às declarações de Trump, indicando que pode responder lançando ataques retaliatórios contra a infraestrutura energética e as usinas de dessalinização dos países do Golfo aliados aos Estados Unidos. Essa escalada representa uma ameaça significativa à estabilidade regional.
Importância estratégica do Estreito de Ormuz
A estreita faixa marítima localizada na costa iraniana é vital para o comércio global de petróleo e gás natural liquefeito (GNL). O Estreito de Ormuz é a única ligação entre o Golfo Pérsico e os oceanos do mundo.
- Aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido globalmente passa por essa rota
- Grande parte do petróleo tem destino à China, Índia e outros países da Ásia
- Cerca de 20% do comércio mundial de GNL também depende dessa passagem
Capacidade iraniana de bloquear a passagem
Nas primeiras semanas do conflito, embarcações no Golfo Pérsico, no Estreito de Ormuz e no Golfo de Omã foram atingidas por projéteis lançados pelo Irã em diversas ocasiões, praticamente paralisando o tráfego marítimo. Para o Irã, é relativamente simples causar danos significativos.
De acordo com reportagem do jornal americano "The New York Times", o chefe do Estado‑Maior dos EUA, Dan Caine, teria alertado Trump que um único soldado iraniano em uma lancha rápida poderia disparar um míssil contra um petroleiro ou instalar uma mina naval.
Alvos potenciais dos Estados Unidos
Donald Trump afirmou que começaria atacando a "maior" usina do Irã – sem especificar qual seria. É possível que os Estados Unidos estejam considerando atingir usinas termelétricas a gás, já que, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), cerca de 80% da eletricidade iraniana em 2023 foi gerada a partir de gás natural.
- A instalação mais importante desse tipo é a usina termelétrica de vapor e gás de Damavand, localizada perto de Teerã, com capacidade superior a 2.800 megawatts
- Outra grande usina está situada na província de Mazandaran, às margens do Mar Cáspio, com uma capacidade superior a 2.200 megawatts
- O único reator nuclear iraniano, a usina de Bushehr, fica cerca de 760 quilômetros ao sul de Teerã, na costa do Golfo Pérsico
Consequências para a população iraniana
A economia iraniana já está profundamente afetada pela guerra. Mesmo durante o Ano-Novo persa, bazares e centros comerciais permaneceram vazios – resultado dos ataques, das sanções internacionais e da censura na internet imposta pelo governo.
Um ataque às usinas a gás ameaçaria diretamente o fornecimento de energia de milhões de iranianos. Um colapso elétrico teria consequências graves:
- Interrupção de sistemas de resfriamento e aquecimento
- Interrupção do abastecimento de água devido ao desligamento das bombas
- Afetação do sistema bancário e da indústria
Vulnerabilidade das usinas de dessalinização
Em reposta às ameaças de Trump, Teerã sinalizou que pode atacar usinas de dessalinização na região do Golfo. Uma campanha sistemática contra essas estruturas representaria uma escalada ainda mais grave, colocando em risco o abastecimento de água de milhões de pessoas.
Poucas regiões do mundo dependem tanto da dessalinização quanto os países do Golfo. Na árida Península Arábica, quase não há fontes naturais de água doce. No total, os países da região possuem cerca de 3.400 usinas de dessalinização.
Potenciais crimes de guerra
Caso ataques contra essas infraestruturas venham a ser realmente executados, seja pelos EUA, Israel ou o Irã, eles poderiam configurar crimes de guerra, segundo especialistas em direito internacional humanitário.
"Atacar intencionalmente infraestruturas civis, como usinas de energia, é geralmente proibido. Mesmo nos casos excepcionais em que se qualificam como alvos militares, uma parte ainda não pode atacar usinas de energia se isso puder causar danos desproporcionais a civis", avaliou Erika Guevara-Rosas, Diretora Sênior da Anistia Internacional.
A especialista acrescentou que "ao ameaçar com tais ataques, os EUA estão efetivamente indicando sua disposição de mergulhar um país inteiro na escuridão e de potencialmente privar seu povo de seus direitos humanos à vida, água, alimentação, saúde e um padrão de vida adequado".
Impacto econômico e humanitário
De acordo com uma análise do think tank americano Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), o impacto sobre o abastecimento de água nos países do Golfo dependerá da quantidade e da intensidade dos ataques.
"O efeito mais significativo poderia ser psicológico", afirma o CSIS. Isso porque esse tipo de ataque comprometeria a imagem de segurança e estabilidade que sustenta grande parte do modelo econômico dos países do Golfo.
Mesmo que os governos consigam garantir o abastecimento temporário de água por meios alternativos, o prejuízo maior seria a provável retração de turistas, empresas e investidores, que tenderiam a se afastar ainda mais da região.



