Rússia e Irã firmam acordo de cooperação, mas evitam compromisso de defesa mútua
Em meio à escalada de tensões no Oriente Médio, a Rússia e o Irã consolidaram uma parceria estratégica que promete compartilhamento de informações, realização de exercícios militares conjuntos e a garantia da segurança regional. Contudo, o acordo assinado em janeiro de 2025 não configura um pacto de defesa mútua, deixando claro que os dois países não se comprometeram a defender um ao outro em caso de ataque direto.
Apoio russo: retórica forte, ações limitadas
O apoio da Rússia ao Irã tem sido marcado por uma postura vocal, porém cautelosa. Após os ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, o governo russo expressou "profunda decepção" e condenou o que classificou como "agressão não provocada". O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, enfatizou que a Rússia mantém contato constante com a liderança iraniana e com os países do Golfo afetados pela crise.
O presidente Vladimir Putin enviou condolências ao presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, pela morte do aiatolá Ali Khamenei, descrevendo o episódio como uma violação cínica da moralidade humana e do direito internacional. Apesar das fortes palavras, a Rússia evitou críticas pessoais ao presidente norte-americano, Donald Trump, e continua a reconhecer os esforços de mediação dos EUA em relação à Ucrânia.
Analistas como Sergei Goryashko, da BBC News Rússia, destacam que o apoio russo permanece em grande parte retórico. O Irã tornou-se um dos aliados mais próximos da Rússia após a invasão em larga escala da Ucrânia, fornecendo drones e auxiliando na contornação de sanções ocidentais. No entanto, a Rússia demonstrou não estar disposta a assumir riscos excessivos por seus parceiros, como visto em crises anteriores na Venezuela, Síria e durante a guerra de 12 dias entre Israel e Irã em 2025.
Laços econômicos e militares: modéstia e expansão
Os laços econômicos entre Rússia e Irã são considerados modestos, com o comércio bilateral girando em torno de US$ 4 bilhões a US$ 5 bilhões. Em contrapartida, os vínculos militares e industriais estão em franca expansão. Relatórios indicam que a Rússia forneceu ao Irã aeronaves de treinamento Yak-130 e helicópteros de ataque Mi-28, além de planejar a entrega de caças Su-35.
O uso de drones Shahed, de fabricação iraniana, alterou significativamente as táticas das forças russas na frente ucraniana. Curiosamente, a Rússia ampliou rapidamente sua própria produção de drones no ano passado, reduzindo a dependência de armamentos iranianos. Para especialistas, o Irã é importante demais para ser abandonado, mas não o suficiente para que a Rússia entre em guerra por ele.
China: parceira econômica fundamental para o Irã
Enquanto isso, a China emerge como o maior parceiro comercial do Irã e seu principal comprador de petróleo. Apesar das duras sanções impostas pelos EUA, a China manteve-se como a principal tábua de salvação econômica do governo iraniano, adquirindo grandes volumes de petróleo a preços com desconto por meio de "frotas fantasmas".
Em 2025, a China comprou mais de 80% do petróleo exportado pelo Irã, ajudando a estabilizar a economia iraniana e a financiar gastos com defesa. Um acordo estratégico de 25 anos, assinado em 2021, consolidou a relação, prometendo centenas de bilhões de dólares em investimentos chineses em infraestrutura e telecomunicações no Irã.
Divergências no bloco Brics e perspectivas futuras
A crise no Irã expôs contradições dentro do Brics, bloco do qual ambos os países fazem parte. Enquanto Brasil, China e Rússia condenaram oficialmente a ação conjunta entre EUA e Israel, outros integrantes como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Índia não condenaram os bombardeios, mas sim os ataques com mísseis realizados pelo Irã contra bases norte-americanas no Golfo Pérsico.
Especialistas avaliam que a atual crise coloca em xeque a capacidade de ação coletiva de um grupo com interesses geopolíticos tão distintos. Um colapso da República Islâmica poderia enfraquecer a credibilidade dos mecanismos multilaterais que Rússia e China vêm tentando fortalecer.
Na visão de analistas, a China deve adotar sua habitual "estratégia de longo prazo", buscando estabelecer relações com quem assumir a liderança do Irã, enquanto a Rússia procurará suas próprias oportunidades. A intervenção russa, por ora, tende a permanecer restrita ao discurso, refletindo um cálculo geopolítico cuidadoso em um cenário internacional cada vez mais complexo.



