O ano de 2026 começou com um alerta contundente dos mercados financeiros e dos analistas de geopolítica: os 30 anos de relativa paz que se seguiram ao fim da Guerra Fria chegaram ao fim. O mundo está entrando em uma nova era, marcada pelo rearranjo de forças, aumento recorde dos gastos militares e uma lógica de preparação para conflitos, e não para a conciliação.
O termômetro da tensão: gastos militares em alta e mudança de estratégia
O professor Vitélio Brustolin, da Harvard University e da Universidade Federal Fluminense, participante do programa Mercado, sintetizou a mudança no pano de fundo global. Segundo ele, os Estados Unidos têm sinalizado, por meio de ações e discursos, uma intenção clara de priorizar a América do Sul e adotar uma lógica de "zonas de influência". Essa postura remete, em sua análise, à divisão de áreas de interesse entre as grandes potências que ocorreu em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial.
Essa guinada estratégica não é apenas retórica. Ela é confirmada pelos números. Os gastos militares globais continuam em trajetória de recorde, com o ano de 2024 registrando uma alta expressiva. O montante global investido em defesa superou a marca de US$ 2,7 trilhões, de acordo com dados compilados por institutos especializados. A tendência não é exclusiva dos EUA. A Europa, que por anos "terceirizou" sua segurança, também acelerou o passo no rearmamento.
Mercados reagem: do petróleo às ações de defesa
A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro em uma operação americana, noticiada no fim de semana que antecedeu o dia 5 de janeiro, serviu como um gatilho imediato para testar os nervos do mercado. Contudo, o impacto nos preços do petróleo foi menos dramático do que alguns esperavam. O barril de Brent chegou a oscilar, mas não sofreu um choque instantâneo, já que a Venezuela responde por uma parcela pequena da produção mundial.
A reação mais nítida foi a clássica dos tempos de incerteza. O mercado acionário imediatamente realocou recursos para setores considerados mais seguros ou beneficiários do contexto. Ações ligadas a energia e defesa ganharam tração, com destaque para as petroleiras americanas no pré-mercado. Simultaneamente, investidores correram para ativos típicos de proteção, como metais preciosos.
Para o economista Rodrigo Marques, da Nest Asset, o movimento é coerente. Em um ambiente de conflito, cresce a demanda por uma espécie de "seguro", e esse tipo de segurança tem um custo elevado, refletido tanto no orçamento público quanto no prêmio de risco exigido pelos investidores.
O "novo normal": mais disputas, custos elevados e pressão sobre commodities
Vitélio Brustolin listou os principais tabuleiros geopolíticos que podem se acender simultaneamente: a Europa (sob pressão russa e em processo de rearmamento), a região Ásia-Pacífico (com focos de tensão em Taiwan, Japão e Coreia) e as consequências de uma política externa americana mais impositiva em seu entorno regional.
O mundo real confirma esse clima. Segundo levantamento do UCDP (Uppsala Conflict Data Program), o número de conflitos ativos com participação de Estados atingiu em 2024 o maior patamar desde meados do século passado.
Quando esse "novo normal" se instala, a economia sente os efeitos por canais muito práticos:
- Energia: Qualquer ruído na oferta se transforma em volatilidade extrema de preços.
- Cadeias de commodities: Minérios críticos e terras raras se tornam peças centrais de barganha geopolítica.
- Inflação e juros: O risco geopolítico prolongado é incorporado aos modelos de política monetária como uma incerteza persistente, dificultando o combate à inflação.
O economista André Galhardo, da Análise Econômica, acrescenta uma perspectiva importante: mesmo quando o preço do petróleo não dispara imediatamente, o mercado começa a precificar as possíveis mudanças na dinâmica de oferta. Isso é especialmente relevante se grandes consumidores, como a China, forem obrigados a redesenhar suas rotas de abastecimento e a buscar novos fornecedores.
E o Brasil nesse cenário? A posição estratégica no "clube dos recursos"
Embora não esteja no centro dos conflitos diretos, o Brasil ganha uma posição de destaque no mapa de interesses das grandes potências. André Galhardo destacou que, além do petróleo, o país tem peso relevante na discussão sobre minerais críticos e terras raras.
Em um mundo mais armado e tecnológico, quem controla insumos estratégicos ganha poder de barganha, mas também atrai pressão diplomática. O Brasil, portanto, se encontra em uma posição ao mesmo tempo vantajosa e delicada.
O início de 2026 deixa uma mensagem crua: o chamado "dividendo da paz" ficou definitivamente para trás. E o investidor, sempre pragmático, já começou a reagir. Ajusta seu portfólio como quem, diante de uma tempestade que se anuncia, troca o guarda-chuva por um capacete.