Israel acusa Irã de usar mísseis de fragmentação em ataques recentes
As forças militares de Israel têm acusado publicamente o regime iraniano de utilizar mísseis de fragmentação em ataques contra seu território desde o início do conflito entre as nações. Normalmente restritivas quanto à divulgação de informações sobre danos causados pelo Irã, as autoridades israelenses têm buscado, nos últimos dias, conscientizar a população sobre os perigos dessas bombas, que podem permanecer ativas no solo mesmo após civis deixarem seus abrigos.
Vítimas civis e histórico de uso
Pelo menos três pessoas morreram em incidentes relacionados, incluindo duas em um canteiro de obras no centro de Israel na terça-feira, 10 de março. Este não é o primeiro episódio do tipo: em junho de 2025, durante a guerra dos 12 dias entre Israel e Irã, Israel já havia denunciado o uso desse tipo de munição por Teerã.
Israel, por sua vez, tem um histórico próprio com essas armas. O país usou diversas vezes munições de fragmentação contra o Líbano em conflitos que se estenderam de 1978 a 2006. No último confronto contra o grupo extremista Hezbollah, em 2024, autoridades libanesas também apontaram fortes indícios do uso desses mísseis pelos israelenses.
O que são munições de fragmentação?
As munições de fragmentação, também conhecidas como "cluster munition", são armamentos projetados para se abrir no ar e liberar várias submunições sobre um território extenso. Essas pequenas bombas têm como alvo principal áreas amplas, podendo atingir simultaneamente soldados, veículos e infraestruturas.
De acordo com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, elas foram usadas pela primeira vez durante a Segunda Guerra Mundial. Há, ainda segundo o mesmo comitê, uma grande proporção de munições de fragmentação estocadas como heranças da Guerra Fria.
O uso em áreas civis é considerado extremamente perigoso, já que muitas submunições não explodem no momento do impacto e permanecem ativas no solo, funcionando como minas terrestres. Isso significa que elas podem ferir ou matar civis anos após o fim dos conflitos.
Convenção internacional e críticas
Há uma convenção de 2008 que proíbe o uso desse tipo de munição, mas nem Israel nem Irã são signatários, e não se veem obrigados a segui-la. Em 2008, mais de 110 países assinaram, em Dublin, na Irlanda, a Convenção sobre Munições Cluster, um tratado internacional que proíbe o uso, desenvolvimento, armazenamento e transferência desse tipo de armamento.
O acordo estabelece que os países signatários se comprometem a nunca utilizar munições de fragmentação, desenvolvê-las, produzi-las, adquiri-las ou mantê-las, de forma direta ou indireta, nem colaborar ou incentivar qualquer ação que contrarie os termos do tratado.
Potências militares como Estados Unidos, Rússia e Ucrânia também não aderiram à convenção e, por isso, não estão legalmente vinculadas às suas restrições. O Brasil igualmente está fora da lista de signatários.
Envolvimento brasileiro e arsenal regional
Em 2017, um relatório da organização Human Rights Watch denunciou o uso de bombas de fragmentação de fabricação brasileira em ataques a escolas no Iêmen, realizados dois anos antes por uma coalizão liderada pela Arábia Saudita. Na ocasião, Steve Goose, diretor da divisão de armas da Human Rights Watch e presidente da Coalizão Contra Munições Cluster, criticou duramente a postura brasileira.
Segundo a ONG Landmine and Cluster Munition Monitor, Israel usou munições de fragmentação pela última vez em 2006, em combates no sul do Líbano contra o Hezbollah. O país teria continuado a produzir esse tipo de armamento até 2018. Além de vender para outros países, a ONG acredita que Israel ainda possui grandes estoques em seu próprio arsenal.
A Landmine and Cluster Munition Monitor diz que não conseguiu verificar de forma independente o uso dos mísseis de fragmentação do Irã em 2025, e não faz menção aos ataques deste mês. Em junho passado, a Anistia Internacional criticou o uso desse tipo de munição por Teerã.
