Irã ameaça fechar Estreito de Bab el-Mandeb, rota vital para 12% do petróleo mundial
Enquanto o mundo acompanha a crise no Estreito de Ormuz, um outro ponto estratégico no Oriente Médio surge como nova ameaça aos mercados globais de energia. O Estreito de Bab el-Mandeb, situado entre o Iêmen, Djibuti e Eritreia no Mar Vermelho, tornou-se alvo de ameaças iranianas de bloqueio caso os Estados Unidos não encerrem o conflito na região. Esta passagem marítima controla o tráfego em direção ao Canal de Suez e transporta aproximadamente 12% do petróleo comercializado por via marítima em todo o planeta.
Houthis prontos para assumir controle estratégico
Na última semana, a agência semioficial iraniana Tasnim, vinculada à Guarda Revolucionária, divulgou informações alarmantes. Segundo fontes militares iranianas, os houthis — grupo armado do Iêmen apoiado pelo Irã — estariam completamente preparados para assumir o controle do Estreito de Bab el-Mandeb como parte das chamadas "forças de resistência".
"Se houver necessidade de controlar o Estreito de Bab el-Mandeb para punir ainda mais o inimigo, os heróis do Ansar Allah do Iêmen estão totalmente preparados para desempenhar um papel fundamental", declarou uma fonte militar à agência Tasnim. A mesma fonte acrescentou que os houthis já demonstraram que fechar a rota "é uma tarefa fácil para eles".
As ameaças ganharam concretude quando, no sábado (28 de março), os houthis lançaram um ataque com mísseis contra Israel pela primeira vez desde o início do conflito. O grupo afirmou ter como alvo "instalações militares israelenses sensíveis", enquanto Israel confirmou ter interceptado um míssil lançado do território iemenita.
Alerta internacional e riscos econômicos
Diante das crescentes ameaças, os Estados Unidos emitiram um alerta formal sobre a possibilidade de ataques houthis no Estreito de Bab el-Mandeb. A Administração Marítima do Departamento de Transportes dos EUA advertiu que, embora o grupo não tenha atacado navios comerciais desde o acordo de cessar-fogo entre Israel e Gaza em outubro de 2025, os houthis continuam representando uma ameaça significativa aos ativos norte-americanos e embarcações comerciais na região.
Um eventual bloqueio do estreito agravaria dramaticamente a crise no mercado de energia, já profundamente pressionada pela situação no Estreito de Ormuz. Com Ormuz fechado — por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido globalmente —, os preços do petróleo Brent já saltaram de aproximadamente US$ 70 para mais de US$ 100 por barril desde o início da crise.
A interrupção de mais uma rota marítima crucial poderia elevar ainda mais os preços e intensificar o impacto econômico do conflito com o Irã, afetando não apenas o comércio de petróleo, mas também o transporte global de uma ampla gama de produtos, desde bens de consumo até matérias-primas agrícolas.
Importância histórica e estratégica
Com 115 quilômetros de extensão e 36 quilômetros de largura, o Estreito de Bab el-Mandeb — cujo nome significa "portão das lágrimas" ou "portão da dor" em árabe — ocupa uma posição geográfica estratégica que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Aden e, por extensão, ao Oceano Índico.
Sua importância comercial remonta à antiguidade:
- No antigo Egito, expedições buscavam incenso, ouro e animais exóticos através desta rota
- Os romanos dependiam da passagem para o comércio com a Índia e o Oriente
- Durante a Idade Média, consolidou-se como rota crucial para especiarias e têxteis
- A abertura do Canal de Suez em 1869 transformou-o em elemento essencial da rota mais curta entre Europa e Ásia
Atualmente, o corredor do Mar Vermelho é um dos mais movimentados do mundo, transportando aproximadamente um quarto de todo o comércio marítimo global. Diariamente, cerca de 4,5 milhões de barris de petróleo cruzam estas águas, além de significativas remessas de gás natural liquefeito (GNL).
Histórico de conflitos e ameaças atuais
O Estreito de Bab el-Mandeb tem longa história de perigos e conflitos:
- Entre 2008 e 2012, piratas somalis sequestraram tripulações para exigir resgates
- Em 2021, o encalhe do cargueiro Ever Given no Canal de Suez causou bloqueio significativo
- De novembro de 2023 a janeiro de 2024, os houthis atacaram mais de 100 navios comerciais
Após a invasão israelense de Gaza em outubro de 2023, os houthis iniciaram uma campanha de ataques a embarcações no Mar Vermelho e Golfo de Aden, alegando solidariedade ao povo palestino. Esses ataques — utilizando mísseis e drones — afundaram duas embarcações e resultaram na morte de quatro marinheiros, forçando grandes companhias marítimas e petrolíferas a suspenderem o trânsito pela rota.
Embora os incidentes tenham diminuído significativamente após o cessar-fogo de outubro de 2025, a atual guerra entre EUA, Israel e Irã reacendeu as ameaças em um contexto ainda mais preocupante para a estabilidade do mercado energético global.



