Irã relata ataque a instalação nuclear e nega acidente radioativo
A Organização de Energia Atômica do Irã divulgou nesta sexta-feira, 27 de março de 2026, que uma instalação de processamento de urânio no centro do país foi alvo de ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel. A informação foi transmitida através do canal oficial da entidade no aplicativo de mensagens Telegram, gerando preocupação internacional sobre possíveis consequências radioativas.
Detalhes do incidente em Ardakan
Segundo as autoridades iranianas, a usina Ardakan, localizada na província de Yazd, foi atingida por um ataque descrito como "do inimigo americano-sionista". A instalação é responsável pela produção de concentrado de urânio, conhecido como yellowcake, que representa a etapa inicial no processamento do material radioativo.
As avaliações preliminares realizadas pelo governo iraniano indicam que não houve liberação de materiais radioativos para fora das instalações, conforme afirmado em comunicado oficial. "Não há motivo para preocupação com os cidadãos ou as áreas vizinhas", garantiu a organização atômica do país.
Contexto do programa nuclear iraniano
Este incidente ocorre em um momento de crescente tensão internacional em torno do programa nuclear do Irã. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) havia informado no início do mês que o país estava utilizando centrífugas avançadas na planta de Natanz para enriquecer urânio em até 60%, criando um estoque de aproximadamente 450 kg do material.
O nível de enriquecimento alcançado pelo Irã está próximo dos 90% de pureza considerados necessários para a produção de uma bomba nuclear, sendo teoricamente suficiente para confeccionar até dez ogivas nucleares, segundo especialistas internacionais.
Reações e tensões diplomáticas
O ataque ocorre poucos dias após o chefe de direitos humanos das Nações Unidas, Volker Türk, advertir que disparos contra infraestruturas nucleares em meio à guerra no Oriente Médio poderiam causar uma "catástrofe sem precedentes".
O programa nuclear iraniano tem sido o centro das hostilidades entre Estados Unidos, Israel e o próprio Irã. A coalizão israelo-americana acusa Teerã de instrumentalizar seu programa atômico para fins bélicos, enquanto as autoridades iranianas negam qualquer projeto militar nuclear, reiterando que seu programa serve exclusivamente a fins civis e energéticos.
Erosão do acordo nuclear e cenário atual
A tensão em torno do programa nuclear iraniano se intensificou significativamente após a erosão do acordo firmado em 2015, conhecido como Plano de Ação Conjunto Global. Este pacto impunha limites rígidos ao enriquecimento de urânio em troca do alívio de sanções internacionais.
Desde a saída unilateral dos Estados Unidos do acordo durante o primeiro mandato de Donald Trump, o Irã ampliou progressivamente seus níveis de enriquecimento e reduziu a cooperação com inspetores internacionais. O governo iraniano considera que os recentes ataques representam uma "traição à diplomacia" que torna uma reabertura do diálogo praticamente inútil.
"Não há conversas nem negociações entre o Irã e os Estados Unidos. Ninguém pode confiar na diplomacia dos Estados Unidos", afirmou recentemente Esmail Beghaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã.
Processo de produção nuclear
A fábrica de Ardakan produz concentrado de urânio (yellowcake) através de um processo que envolve:
- Extração do minério de urânio das rochas
- Separação de resíduos por meio de imersão em ácido
- Produção do concentrado em pó
Embora essencial na produção de combustível nuclear, o yellowcake não pode ser usado diretamente em reatores. O material precisa passar por conversão e enriquecimento para aumentar sua pureza antes de ser utilizado para produção de energia ou, potencialmente, para fins bélicos.



