Guerra Irã-Israel: Trump declara vitória, mas conflito se horizontaliza e desafia narrativa
Guerra Irã-Israel: Trump diz vitória, mas conflito persiste

Guerra Irã-Israel: Trump declara vitória, mas conflito se horizontaliza e desafia narrativa

O conflito entre o Irã e Israel revela uma complexa dualidade estratégica, onde declarações de vitória convivem com realidades persistentes de hostilidade. Enquanto o ex-presidente americano Donald Trump se jacta de ter reduzido drasticamente o poderio militar iraniano, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu mantém cautela, e o regime teocrático de Teerã explora táticas de "horizontalização" para manter sua relevância no cenário global.

Números impressionantes versus realidade operacional

Donald Trump tem motivos para celebrar publicamente os resultados bélicos. Em declaração recente, afirmou que "não sobrou praticamente nada" para ser alvejado no Irã, apenas "uma coisinha aqui, outra ali". Os dados parecem corroborar sua avaliação: um levantamento detalhado mostra que a capacidade de ataque iraniana com mísseis balísticos sofreu redução impressionante de 92% desde o início das hostilidades em 28 de fevereiro.

No primeiro dia do conflito, o Irã disparou 480 mísseis balísticos, número que subiu para 520 no segundo dia, mas declinou progressivamente para apenas 40 nos dias subsequentes. Os drones, que começaram com 720 unidades, foram reduzidos a meros 60 na última contagem. A Marinha iraniana foi praticamente eliminada, com a maioria de seus navios hoje no fundo do mar, e as baixas americanas se limitam a apenas sete fatalidades.

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Divergências estratégicas entre aliados

Apesar dos números favoráveis, não existe sintonia total entre os aliados. Benjamin Netanyahu sentiu necessidade de declarar publicamente que "ainda não acabamos", deixando claro que Israel vê o conflito como questão existencial que exige eliminação completa do regime iraniano. Para o Estado judeu, a ameaça vai além de capacidades militares reduzidas, tratando-se de regime cuja razão de ser é implantar mundialmente a religião muçulmana e extirpar a nação judaica.

Trump, por outro lado, enfrenta pressões domésticas significativas. Com 54% dos americanos desaprovando a guerra e eleições legislativas em novembro, o ex-presidente precisa equilibrar conquistas militares com manutenção de vitórias econômicas, especialmente controle da inflação e preços da gasolina que eram bandeiras de seu governo.

A estratégia de horizontalização iraniana

O regime iraniano, embora severamente atingido com eliminação de 49 de seus homens mais poderosos incluindo o líder supremo Ali Khamenei, mantém forças armadas e de segurança relativamente intactas. Mais importante, desenvolve sofisticada estratégia de horizontalização do conflito, espraiando a guerra para além do teatro militar tradicional.

Como explicou o acadêmico Robert Pape na Foreign Affairs, "a escalada horizontal de uma guerra acontece quando um estado alarga o escopo geográfico e político de um conflito em vez de intensificá-lo verticalmente num único teatro de operações". O Irã aplica precisamente esta tática, utilizando pressões econômicas globais como arma estratégica.

Pressão econômica como arma de guerra

Mesmo com capacidade militar reduzida, o Irã demonstra que bastam poucos drones para causar estragos significativos, como aconteceu com novo fechamento do aeroporto de Dubai. Simples ameaças levaram à evacuação de instituições bancárias em Dubai e Catar, desmentindo a ideia de que emirados eram ilhas seguras para turistas e moradores estrangeiros.

Mas o verdadeiro poder iraniano reside na capacidade de convulsionar mercados globais. Lanchas carregadas de explosivos incendiaram navios no Estreito de Ormuz, ponto crucial para transporte de petróleo mundial, enquanto ameaças persistentes mantêm preços do barril em patamares elevados, pressionando economias ocidentais.

Kazem Gharibabadi, funcionário da chancelaria iraniana, expressou claramente esta estratégia: "No momento, estamos em posição vantajosa. Olhem para o estado da economia global e dos mercados energéticos – eles estão sofrendo muito". Segundo ele, o Irã determinará quando a guerra vai acabar.

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Precedentes históricos e definição de vitória

Analistas lembram precedentes históricos preocupantes, especialmente a Guerra do Vietnã, onde "os Estados Unidos ganharam todas as batalhas em onze cruentos anos, mas famosamente perderam a guerra". Este exemplo ilustra como superioridade militar nem sempre se traduz em vitória política ou estratégica.

A questão fundamental que permanece é: o que constitui vitória neste conflito? Será o que Donald Trump declarar como vitória? Como o público americano interpretará redução de capacidades militares versus persistência de ameaças econômicas? E como considerar vitoriosa campanha onde novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei (ferido no primeiro dia de ataques), clama por vingança por família inteira exterminada?

Enquanto Trump vangloria-se de estar "à frente do cronograma" em campanha calculada para durar seis semanas, o regime iraniano mantém posição coesa, explorando vulnerabilidades econômicas globais e redefinindo parâmetros do que significa vencer guerra no século XXI.