Exército sírio assume controle de áreas curdas e aeroporto de Tabqa
Exército sírio toma aeroporto de Tabqa de forças curdas

O Exército da Síria consolidou neste sábado (17) um avanço significativo no norte do país, assumindo o controle de áreas previamente administradas por forças curdas, que foram evacuadas sob pressão militar. A tomada do estratégico aeroporto militar de Tabqa, na província de Raqqa, marca um ponto crucial nesta nova fase de tensões.

Avanço militar e tomada de posições-chave

De acordo com informações divulgadas pela agência de notícias oficial Sana, as tropas do governo iniciaram a entrada na cidade de Tabqa e procederam ao cerco das forças curdas entrincheiradas no aeroporto. A operação resultou na retomada do controle total da instalação militar, um local simbólico e taticamente importante.

Esta movimentação ocorre no contexto de um esforço contínuo do governo islamita da Síria, estabelecido após a destituição de Bashar al-Assad no final de 2024, para impor sua autoridade em todo o território nacional. Apesar de um acordo de integração ter sido firmado em março passado entre Damasco e as Forças Democráticas Sírias (FDS), dominadas pelos curdos, a implementação enfrenta obstáculos práticos.

Contradições entre gestos políticos e ações militares

Em um aparente movimento conciliatório, o presidente sírio, Ahmed al-Sharaa, emitiu um decreto na sexta-feira (16) declarando o curdo como um "idioma nacional" e concedendo reconhecimento oficial à minoria curda. No entanto, as ações no terreno parecem seguir uma lógica diferente.

Na semana passada, o Exército já havia expulsado forças curdas de dois bairros de Aleppo. Neste sábado, assumiu também o controle de uma área a leste da cidade. Um jornalista da AFP em Deir Hafer testemunhou combatentes das FDS deixando a localidade e moradores retornando, tudo sob forte presença militar.

As autoridades curdas, por sua vez, impuseram um toque de recolher na região de Raqqa após o Exército designar uma faixa de território a sudoeste do rio Eufrates como uma "zona militar fechada" e ameaçar com ataques.

Acusações de traição e combates em curso

As FDS reagiram com veemência aos acontecimentos, acusando o governo de trair o acordo de retirada. Em comunicado, relataram que "conflitos intensos continuam" no norte do país entre suas forças e as facções leais a Damasco.

"As facções de Damasco violaram os acordos recentes e traíram nossas forças enquanto se retiravam", afirmaram. O comunicado ainda acrescentou que áreas da província de Raqqa, sob controle curdo, estavam sendo submetidas a bombardeios de artilharia e disparos de foguetes.

O Ministério da Defesa sírio confirmou avanços além do aeroporto, afirmando ter retomado o controle do campo de petróleo de Safyan e da localidade de Al-Tharwa, também na província de Raqqa.

Reações internacionais e apelos por cessar-fogo

A escalada da violência atraiu a atenção da comunidade internacional. O Comando Central dos Estados Unidos, que historicamente apoia os curdos mas também respalda as novas autoridades sírias, fez um apelo público na rede social X. Pediu que o governo sírio interrompa "qualquer ação ofensiva nas áreas entre Aleppo e Tabqa".

Paralelamente, o presidente da França, Emmanuel Macron, e o líder do Curdistão iraquiano, Nechirvan Barzani, emitiram uma declaração conjunta solicitando "uma desescalada imediata e um cessar-fogo permanente" na Síria, conforme informado pela Presidência francesa.

A cidade de Raqqa, cenário central destes eventos, carrega um peso histórico significativo, tendo servido como a "capital" autoproclamada do grupo Estado Islâmico até ser recuperada pelas FDS com o apoio de uma coalizão multinacional liderada pelos EUA. A nova disputa pela região reacende temores sobre a estabilidade no norte da Síria e o futuro dos acordos políticos frágeis.