Europa resiste a envolvimento na guerra de Trump contra o Irã, colocando aliança transatlântica em xeque
A crescente resistência de aliados europeus ao envolvimento na guerra do presidente americano Donald Trump contra o Irã está colocando a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em uma situação delicada e sem precedentes. Após a Espanha fechar seu espaço aéreo para jatos americanos, a Itália negou permissão para que aeronaves militares dos Estados Unidos com destino ao Oriente Médio pousassem na base de Sigonella, na Sicília.
Recusas estratégicas que abalam a cooperação militar
De acordo com fontes do Ministério da Defesa italiano, "alguns bombardeiros americanos" deveriam utilizar a base de Sigonella – uma importante instalação da Marinha dos Estados Unidos e base da Otan – como ponto de apoio antes de seguirem para o teatro de operações no Oriente Médio. No entanto, tratados assinados no final da década de 1950 exigem aprovação parlamentar italiana para uso bélico da base, o que não foi concedido.
Na véspera, a ministra da Defesa da Espanha, Margarita Robles, já havia informado que, além da proibição do uso de bases militares espanholas para atos relacionados à guerra contra o Irã, o espaço aéreo do país estava formalmente fechado para aeronaves americanas. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, tem sido um dos críticos mais veementes de Trump entre os líderes europeus, chegando a classificar a guerra como "ilegal".
Reação em cadeia e críticas públicas de Trump
A resistência europeia não se limitou à Península Ibérica e à Itália:
- A Polônia afirmou não ter planos de realocar seus sistemas de defesa Patriot para o Oriente Médio
- A França não permitiu que Israel utilizasse seu espaço aéreo para transportar armamentos americanos
- O Reino Unido inicialmente rejeitou pedidos americanos, permitindo posteriormente apenas "ações defensivas limitadas"
- Portugal concedeu acesso à base aérea das Lajes apenas para apoio logístico, enfatizando não ser parte no conflito
Trump respondeu com críticas públicas contundentes nas redes sociais. Sobre a França, escreveu: "A França foi MUITO INÚTIL em relação ao 'Açougueiro do Irã'... Os Estados Unidos se lembrarão disso!". Ao Reino Unido, sugeriu que "criem coragem" e "tomem" o controle do Estreito de Ormuz, acrescentando: "Vocês terão que aprender a lutar por si mesmos, os Estados Unidos não estarão mais lá para ajudá-los".
Corda bamba geopolítica e ameaças à Otan
Lideranças europeias encontram-se em uma posição extremamente delicada desde que os Estados Unidos e Israel iniciaram sua guerra contra o Irã em 28 de fevereiro. Enquanto tentam evitar antagonizar o imprevisível ocupante da Casa Branca, também não desejam ser arrastadas para o complexo barril de pólvora geopolítico que é o Oriente Médio, preferindo manter o foco no conflito mais próximo – a guerra na Ucrânia.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, elevou o tom das ameaças ao afirmar que os Estados Unidos podem "reavaliar seu relacionamento com a Otan" após a guerra com o Irã, classificando a resposta da aliança como "muito decepcionante". Esta declaração representa uma séria ameaça à arquitetura de segurança transatlântica construída após a Segunda Guerra Mundial.
Consequências econômicas e quebra de padrões históricos
A Europa tem muito a perder com o fechamento do Estreito de Ormuz – medida de retaliação iraniana aos bombardeios sofridos. Cerca de 20% do gás e petróleo consumidos globalmente passam por essa passagem estratégica de apenas 40 quilômetros de largura, e o bloqueio já causou disparada nos preços dos combustíveis.
Analistas apontam que a resistência europeia representa uma quebra significativa no padrão histórico de cooperação militar com os Estados Unidos, adicionando uma nova camada de desconfiança e imprevisibilidade à já desgastada aliança transatlântica. "A guerra no Irã colocou essas antigas relações de defesa sob pressão", afirmou Ian Lesser, pesquisador do German Marshall Fund, destacando o caráter inédito da atual crise.
O conflito é amplamente impopular em toda a Europa, que já enfrentava pressões inflacionárias mesmo antes do início das hostilidades. Líderes europeus têm procurado se distanciar consistentemente da guerra, enfatizando que qualquer envolvimento militar até o momento tem sido "puramente defensivo", em contraste com a postura ofensiva americana.



