EUA e Irã acertam cessar-fogo de duas semanas; negociações de paz começam sexta
Da retórica vulgar à apocalíptica, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, finalmente anunciou um cessar-fogo de duas semanas com o Irã. Este movimento o distancia dos objetivos propagados há 40 dias, que incluíam a possibilidade de uma guerra contra o regime dos aiatolás. A vitória alardeada por Trump, após ameaças dramáticas que incluíam a extinção da civilização persa, ressoa como um recuo e uma concessão significativa.
Trunfos iranianos e o preço da manobra
O suposto recuo esbarra em dois trunfos cruciais mantidos pelo Irã: o controle sobre o estratégico Estreito de Ormuz e o avançado arsenal nuclear. Enquanto críticos destacam o ultimato como mais um momento de hesitação do presidente, com piadas sobre "Trump sempre amarela", o cessar-fogo foi saudado como um suspiro coletivo de alívio. Isso ocorreu em um dia traumático, marcado por contagem regressiva para uma potencial catástrofe mundial.
Trump conseguiu fazer o planeta girar em torno de seu eixo, mas a manobra terá um preço alto: a recuperação da credibilidade dos Estados Unidos e a sua própria. Seus ultimatos e prenúncios do apocalipse passarão a ter valor reduzido no mercado da barganha internacional, segundo analistas.
Plano de paz e pontos de discussão
As discussões do plano de paz estão agendadas para começar na próxima sexta-feira (10). O plano inclui dez pontos a serem negociados com o Irã, entre os quais:
- O levantamento das sanções econômicas impostas pelos EUA.
- O controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz.
- A liberação dos ativos financeiros congelados do Irã.
- A retirada militar das forças dos EUA do Oriente Médio.
Estes pontos foram anteriormente rejeitados pelo governo Trump, mas agora estão na mesa de negociações. Na versão em farsi do acordo, o Irã incluiu a frase "aceitação do enriquecimento do urânio" para seu programa nuclear, um tópico que sempre representou uma linha vermelha para os Estados Unidos e Israel.
Metas não alcançadas e regime fortalecido
Objetivamente, as metas traçadas pelo governo americano para justificar a ofensiva militar não parecem ter sido alcançadas. Embora combalido com a morte de figuras proeminentes, o regime iraniano foi preservado sob uma liderança ainda mais intransigente. Isso contrasta com a narrativa de Trump, que sugere negociar com atores "mais razoáveis".
"Isso deixa um governo teocrático, apoiado pela cruel Guarda Revolucionária Islâmica, no comando de uma população intimidada, castigada por mísseis e bombas, e que se encontra ainda sob o jugo de um regime familiar, mesmo que sob nova direção", escreveu o analista David Sanger, do New York Times.
Consequências e desafios futuros
A guerra também deu oportunidade ao Irã de reforçar o seu controle sobre o Estreito de Ormuz, ameaçando desestabilizar a economia global. O regime se mantém desafiador, vangloriando-se da perspectiva de cobrar pedágio de embarcações que navegam pela via marítima e estabelecer uma nova ordem para o corredor, fundamental para o transporte de petróleo e gás.
O desastre imediato pode ter sido evitado, e o conflito no Oriente Médio entrou no modo pausa pelas próximas duas semanas. No entanto, a reputação dos Estados Unidos foi profundamente abalada pelos desvarios de Trump. O presidente precisará empreender um esforço hercúleo em sua estratégia de convencimento sobre a vitória, enquanto o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã completa um mês de tensões elevadas.



