Brasileiros no Líbano enfrentam crise humanitária após ataques israelenses
O despertar veio às 2h30 da madrugada, marcado pelo estrondo das bombas e gritos que ecoavam por todo o prédio e cidade. Este é o relato vívido da brasileira Romilda Salman, que no dia 2 de março, quando Israel atacou o Líbano, abandonou com o marido e filhos a casa onde vivia há 25 anos. Romilda integra o contingente de mais de 1,2 milhão de pessoas – aproximadamente um quinto da população libanesa – forçadas a deixar seus lares pelo conflito entre Israel e Hezbollah, que já causou pelo menos mil mortes no país, conforme dados da Organização das Nações Unidas (ONU).
Fuga desesperada e separação familiar
"Se eu morrer, quero morrer com a minha filha", declarou Romilda Salman durante a fuga caótica de seu apartamento em Haret Hreik, subúrbio ao sul de Beirute. A família, sabendo que não retornaria tão cedo, dividiu-se entre moto e carro. Diante do congestionamento intenso, os filhos tentaram convencer a mãe a sair rapidamente da região de risco. "Numa altura do caminho, o meu filho falou: 'Mama, vem comigo porque de moto chegamos mais rápido'", conta Romilda. "Eu falei: não. Se eu morrer, vou morrer com a minha filha. Ela começou a chorar e gritar, estava desesperada, nervosa, dirigindo".
Romilda acabou indo com o filho de moto, chegando em pouco mais de 20 minutos a uma área central de Beirute, enquanto a filha e o marido, de carro, levaram mais de três horas para percorrer o mesmo trajeto sob bombardeios constantes. Atualmente, a família está abrigada em um apartamento cedido por um libanês que reside no exterior, compartilhando o espaço com outras famílias desalojadas. "Estamos praticamente acampados. Não temos geladeira, não temos fogão. Compramos um fogareiro pequeno e estamos dormindo em colchonetes", descreve Romilda, que expressa gratidão por ter um teto, contrastando com muitos que dormem em barracas nas ruas ou dentro de carros.
Condições precárias em abrigos coletivos
A situação se repete para outros brasileiros. Lindaura Hijazi, de 52 anos, natural de Assis-Chateaubriand (PR) e residente no Líbano desde 1991, também fugiu de Haret Hreik após mísseis caírem próximos à sua casa. "Não sabia se conseguiria fugir — a cada cinco ou dez segundos, uma bomba caía", relata. Agora, ela e os filhos vivem em uma sala de aula de uma faculdade estadual no centro de Beirute, transformada em abrigo pelo governo. "Estamos dividindo uma sala de aula com outras famílias — são 20 pessoas no total", explica Lindaura, onde cadeiras servem como "armários" e colchões são estendidos no chão à noite.
O marido de Lindaura, Bilal Hijazi, dorme no carro estacionado em uma rua próxima, pois sua presença no abrigo causa constrangimento devido a normas culturais que exigem que mulheres mantenham o lenço na cabeça. Organizações sociais e o governo têm fornecido alimentação e itens de higiene, mas as condições permanecem extremamente difíceis. De acordo com a ONU, 472 prédios educacionais estão sendo usados como abrigos coletivos no Líbano, refletindo a escala da crise.
Contexto do conflito e ameaça de expansão
O conflito é parte da guerra no Oriente Médio que eclodiu em 28 de fevereiro, quando o grupo extremista Hezbollah, aliado do Irã, lançou foguetes contra Israel, que retaliou atacando diversas regiões libanesas e enviando soldados ao sul do país. Nas últimas semanas, Israel intensificou sua presença e ataques no sul do Líbano, aumentando temores de uma invasão em larga escala. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, afirmou que moradores do sul do Líbano não devem retornar às suas casas até que a segurança no norte de Israel seja garantida, declarando: "Não retornarão ao sul do rio Litani até que a segurança dos moradores do norte de Israel seja garantida".
Israel anunciou planos para expandir uma "zona-tampão" no território libanês, uma faixa de contenção entre frentes de combate. No entanto, conforme explica Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da UFF e pesquisador de Harvard, para ser legítima, tal zona requer acordo entre as partes e respeito à soberania libanesa. "No caso da zona-tampão que Israel quer criar no Líbano, ela seria dentro do território libanês, e precisaria do consentimento do Líbano para ser considerada legítima", destaca.
Crise humanitária profunda
A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) descreveu a situação atual do Líbano como "uma profunda crise humanitária" e alertou para o risco de uma catástrofe na região. Com 22 mil brasileiros residindo no Líbano, segundo o Itamaraty, muitos enfrentam incertezas sobre o futuro. Romilda não sabe a condição atual de sua casa, mas recebeu imagens de prédios vizinhos bombardeados, incluindo o quarto das filhas de uma vizinha destruído pelos ataques.
As famílias deslocadas vivem em condições precárias, sem data para voltar para casa, enquanto o conflito continua a escalar. O cenário é trágico, com brasileiros e libaneses compartilhando histórias de resiliência e medo, destacando o impacto humano de uma guerra que transforma lares em memórias e escolas em refúgios improvisados.



