Vereador avança com carro em protesto indígena no PA e quase atropela manifestante
Vereador avança com carro em protesto indígena no PA

Vereador avança com carro em protesto indígena no PA e quase atropela manifestante

Um incidente grave marcou a noite desta quinta-feira (5) em Santarém, no Pará, quando o vereador Malaquias Mottin, do Partido Liberal (PL), dirigindo um carro conversível, tentou furar um bloqueio na BR-163, em frente à sede da empresa Cargill. Durante a ação, um indígena quase foi atropelado, e o episódio foi filmado por outros manifestantes, gerando ampla repercussão nas redes sociais.

Protesto contra decreto de hidrovias completa 15 dias

O grupo de manifestantes, composto principalmente por indígenas, ocupa há 15 dias a entrada da Cargill em protesto contra o decreto nº 12.600/2025. Este decreto inclui trechos hidroviários no rio Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND), abrindo caminho para concessões e privatização da manutenção da navegabilidade, incluindo dragagens. A principal demanda dos indígenas é a revogação do decreto, que também abrange os rios Madeira, em Rondônia, e Tocantins, no Tocantins.

Versões conflitantes sobre o ocorrido

Em nota publicada nas redes sociais, o vereador Malaquias Mottin afirmou ter sido cercado, atacado e ferido por manifestantes que portavam pedaços de madeira. "Já agredido e diante do temor iminente pela própria vida, munido do direito de se proteger, o motorista forçou a saída e conseguiu deixar o local", diz o comunicado. A nota também menciona que a esposa do vereador, que é cadeirante e estava no banco do passageiro, ficou em estado de extremo desespero e sofreu grave abalo psicológico ao ver o esposo correndo risco de vida.

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No entanto, testemunhas relataram à Folha de S.Paulo que o vereador chegou filmando e invadindo o local do protesto com o carro, e que, quando algumas pessoas tentaram impedi-lo, ele teria avançado com o veículo, colocando em risco a integridade física dos manifestantes.

Repúdio de entidades e autoridades

A Câmara Municipal de Santarém emitiu uma nota repudiando os atos atribuídos ao vereador. "A Câmara Municipal de Santarém repudia os atos atribuídos ao vereador Malaquias Mottin, amplamente divulgados em vídeos nas redes sociais, nos quais o parlamentar aparece avançando em direção a barreira formada por indígenas que participavam do ato pacífico, colocando em risco a integridade física dos manifestantes", afirmou o presidente da Casa, Jader Ilson Pereira (União). A nota ainda destacou que intimidação ou ameaças são incompatíveis com o exercício da função pública e com os princípios democráticos.

O Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), entidade representante de 14 povos do Baixo Tapajós, também emitiu uma nota de repúdio, ressaltando que o local de protesto reúne crianças e idosos. "O movimento indígena repudia a tentativa de intimidação e reafirma que a mobilização é legítima e pacífica, em defesa do rio Tapajós, dos territórios e do direito à consulta livre, prévia, informada e de boa-fé", diz trecho da nota.

Contexto do protesto e negociações com o governo

O protesto tem ganhado força nas últimas semanas. Na quarta-feira (4), os manifestantes bloquearam a avenida Fernando Guilhon, que dá acesso ao aeroporto de Santarém, após uma reunião sem acordo com representantes do governo federal. A via foi liberada na noite do mesmo dia. Nesta quinta-feira, os manifestantes voltaram a se reunir com o governo Lula, mas o diálogo também terminou sem acordo, mantendo o ato. Outra reunião está marcada para esta sexta-feira (6), com o objetivo de por fim ao protesto que dura mais de duas semanas.

O projeto de hidrovias já foi alvo de protestos durante a COP30, conferência do clima das Nações Unidas realizada em novembro em Belém. Na ocasião, as ministras Sônia Guajajara, dos Povos Indígenas, e Marina Silva, do Meio Ambiente, afirmaram que a consulta prévia com as comunidades seria realizada. Contudo, essa promessa não foi cumprida, aumentando a tensão na região.

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Posicionamento do Ministério dos Povos Indígenas

O Ministério dos Povos Indígenas emitiu uma nota reconhecendo a legitimidade das preocupações apresentadas pelos manifestantes. "Reafirma que nenhuma iniciativa relacionada à dragagem, manutenção hidroviária ou qualquer outro empreendimento no rio Tapajós pode avançar sem o consentimento livre, prévio, informado e de boa-fé dos povos diretamente, conforme a convenção nº 169 da OIT e a Constituição Federal", destacou o comunicado.

Este incidente reforça os conflitos entre agronegócio, políticas públicas e direitos indígenas no Brasil, evidenciando a necessidade de diálogo e respeito aos processos de consulta prévia estabelecidos por lei.