Conflito interno no Partido Liberal ganha novos capítulos com trocas públicas
Aprofundou-se significativamente nos últimos dias a divisão interna do Partido Liberal, com cobranças públicas e intensas trocas de farpas nas redes sociais envolvendo o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, o deputado federal Nikolas Ferreira e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Este novo capítulo da antiga disputa por influência dentro do partido e pelos rumos da direita bolsonarista teve início no dia 12 de fevereiro, quando Nikolas Ferreira anunciou uma manifestação para o dia 1° de março sob o lema "Fora, Lula, Moraes e Toffoli".
Divergências sobre pautas e estratégias políticas
Deputados do PL por São Paulo, tanto federais quanto estaduais, reagiram imediatamente ao anúncio e publicaram nas redes sociais um novo chamamento para o protesto, eliminando a menção "Fora, Toffoli" e priorizando claramente a pauta da anistia e da derrubada do veto do PL da Dosimetria. Esses parlamentares, mais alinhados ao núcleo duro do bolsonarismo, também criaram um grupo no WhatsApp para organizar o ato na avenida Paulista, esvaziando estrategicamente a liderança de Nikolas Ferreira na convocação.
Os deputados emularam o comportamento do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, que tem evitado cuidadosamente explorar politicamente a pauta do impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, atualmente pressionado por conexões com o banco Master. "A primeira convocação foi muito clara. Fora ministros do STF, fora Lula. Quando vi que não tinha nenhuma menção à anistia aos condenados por golpismo, me preocupou seriamente", declarou à reportagem o deputado Mário Frias, que pode receber o apoio da família Bolsonaro para concorrer ao Senado em São Paulo. "Para mim não existe pauta mais importante no Brasil atualmente do que lutar para que essas pessoas, os presos pelo 8 de janeiro, possam voltar para casa", acrescentou Frias.
Cobranças públicas e respostas contundentes
Na sexta-feira, dia 20 de fevereiro, a discussão esquentou consideravelmente quando Eduardo Bolsonaro afirmou em entrevista ao SBT News que considera insuficiente o apoio de Nikolas Ferreira e de Michelle Bolsonaro à pré-campanha do irmão Flávio. "Nikolas e Michelle estão jogando exatamente o mesmo jogo. Você observa que um, lado a lado, compartilha o outro e apoia o outro nas redes sociais, só estão com uma amnésia seletiva aí", disse Eduardo. "Eu não vi nenhum apoio concreto da Michelle, nenhum post público a favor do Flávio", completou.
Eduardo tornou pública uma insatisfação que já circulava entre políticos do grupo e apoiadores nas redes sociais. O entorno do filho do ex-presidente avalia que existe uma tentativa clara de Nikolas Ferreira de se descolar de Bolsonaro e privilegiar seu próprio engajamento e crescimento político – por isso, teria se aproveitado do noticiário para pedir "Fora, Toffoli". Como mostrou a Folha de S.Paulo, aliados do deputado resumem as críticas como "dor de cotovelo" e disputa por protagonismo, especialmente após a caminhada liderada por Nikolas de Minas Gerais até Brasília contra as prisões decorrentes do 8 de Janeiro.
Eles ressaltam que a pauta da anistia está inclusa no protesto anunciado por ele, mas o contrário não ocorre, já que o grupo não se engajou efetivamente pelo impeachment de Toffoli. Eduardo também expôs insatisfação tratada nos bastidores há meses diante da falta de apoio de Michelle à pré-candidatura de Flávio. O entorno da ex-primeira-dama afirma que ela ficou profundamente decepcionada com a escolha do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo filho para concorrer à Presidência – Michelle era tratada como uma possível vice-candidata caso o governador Tarcísio de Freitas fosse o candidato do bolsonarismo.
Publicações nas redes e interpretações divergentes
No sábado, dia 21 de fevereiro, um dia após a cobrança pública do enteado, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro publicou uma imagem no Instagram mostrando rodelas de banana em uma frigideira ou panela, preparadas para o marido, preso na Papudinha. "Ele ama banana frita", escreveu na legenda. Aliados de Eduardo interpretaram imediatamente a publicação como um deboche direto, já que o filho do ex-presidente é pejorativamente chamado de "bananinha" em alguns círculos.
No dia seguinte, o deputado federal cassado repostou um tuíte de um seguidor que dizia: "Continuem fritando banana enquanto o Flávio e o Eduardo estão trabalhando duro para resgatar o país". Também no sábado, após visitar Bolsonaro na prisão, Nikolas Ferreira respondeu à cobrança do correligionário. Ele declarou que está acostumado com os ataques, defendeu Michelle Bolsonaro e afirmou categoricamente que Eduardo "não está bem".
Novas polêmicas e reações em cadeia
No domingo, dia 20 de fevereiro, o vereador mais votado de Belo Horizonte, Pablo Almeida, ex-assessor de Nikolas Ferreira, publicou um trecho de sete segundos de um vídeo no qual Eduardo Bolsonaro denuncia o que chama de "perseguição" do Supremo Tribunal Federal contra seu pai. "Pode prender meu pai. Talvez vá condená-lo à morte, lamento. É triste? Com certeza", afirma o ex-parlamentar na gravação.
Aliados de Eduardo criticaram veementemente o uso do trecho por Almeida, afirmando que se tratava de uma deturpação grosseira do conteúdo para sugerir que ele não se importa com o pai. "Pablo quem??? Mais um 3i: ingrato, irrelevante e imbecil!!!", escreveu o deputado estadual Lucas Bove na plataforma X. O deputado Mário Frias declarou à reportagem que acredita que deveria haver uma "punição institucional" ao vereador. "Foi uma falta de respeito absurda com um cara que está exilado, sem poder ver o pai. Baixo nível total", afirmou Frias.
Em resposta à publicação do vídeo, o vereador Carlos Bolsonaro disse que o PL está organizado para atacar os filhos do presidente em muitos locais. "O que está cristalino é mais uma tentativa interna de explodir o nome de quem proporcionou fazer o partido chegar até onde chegou", escreveu. O deputado estadual Gil Diniz, ex-assessor de Eduardo que também é cotado para concorrer ao Senado em São Paulo, também afirmou no X que existe um padrão claro no PL Jovem de silenciamento sobre a pré-candidatura de Flávio. "Resta saber de onde está saindo a ordem para uma sabotagem tão bem coordenada!", questionou Diniz.
Ruídos na liderança partidária
No fim de semana também houve um ruído significativo entre Carlos Bolsonaro e Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL. Após visitar o pai na prisão, o vereador afirmou no sábado que Bolsonaro prepara uma lista de pré-candidatos ao Senado e aos governos estaduais. No domingo, Valdemar disse ao portal Metrópoles que "todos no partido têm o direito legítimo de indicar nomes para qualquer posição".
Carlos, em seguida, afirmou no X que a lista se trata especificamente de candidatos que serão apoiados pelo pai, o que não significa que outros atores políticos não possam sugerir outros nomes. "Me parece que as coisas estão meio desencontradas sem querer querendo! As peças todas parecem se encaixar perfeitamente", escreveu. "Deixar o preso político isolado e fazendo isso que estamos vendo de forma acentuada está cada dia mais... estranho!", completou Carlos Bolsonaro, aumentando ainda mais as tensões internas no partido.