O presidente Luiz Inácio Lula da Silva retornou a Brasília nesta quarta-feira, 25 de janeiro, após uma extensa viagem diplomática que passou pela Índia, Coreia do Sul e Emirados Árabes Unidos. O retorno marca o início de um período crucial para o governo, com pelo menos três grandes temas exigindo definições imediatas e estratégicas.
O futuro político de Fernando Haddad
Um dos assuntos mais sensíveis na mesa do presidente é o destino político do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O ministro, que integrou a comitiva presidencial na viagem asiática, tem resistido publicamente à pressão para se candidatar ao governo de São Paulo nas eleições deste ano. Haddad já manifestou preferência por coordenar a campanha de reeleição de Lula, mas o presidente vê no titular da Fazenda um nome forte para enfrentar o atual governador Tarcísio de Freitas no maior colégio eleitoral do país.
Inicialmente, Haddad planejava deixar o Ministério da Fazenda em fevereiro, mas adiou sua saída após pedido pessoal de Lula. Um dos compromissos assumidos pelo ministro foi acompanhar o presidente no encontro com Donald Trump nos Estados Unidos, marcado para março. A indefinição sobre o futuro político de Haddad tem causado tensões dentro do Executivo, com colegas ministros pressionando pela sua candidatura em São Paulo.
Costura de alianças eleitorais
Lula tem trabalhado pessoalmente na construção de alianças estaduais sólidas para fortalecer sua campanha ao quarto mandato. Além de São Paulo, o presidente mantém conversas estratégicas sobre outros estados importantes. Antes da viagem à Ásia, Lula se reuniu com o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e com o prefeito do Recife, João Campos (PSB), pré-candidato ao governo de Pernambuco.
Segundo fontes próximas a Pacheco, o senador encaminhou sua pré-candidatura ao governo de Minas Gerais, embora ainda precise resolver questões partidárias. Pacheco tem intensificado conversas com União Brasil e MDB, indicando possível mudança de legenda.
O núcleo de campanha de Lula começa a tomar forma com a definição de alguns nomes-chave:
- Sidônio Palmeira, ministro da Secretaria de Comunicação, deve deixar a pasta para coordenar o marketing da campanha
- Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral, afirmou que participará da campanha, deixando o cargo "apenas se necessário"
- Edinho Silva, presidente do PT, naturalmente integrará a equipe
Encontro histórico com Donald Trump
A segunda reunião presencial entre Lula e Donald Trump está agendada para março em Washington, com data específica ainda sendo ajustada com a Casa Branca. O governo brasileiro pretende pautar quatro temas principais durante o encontro:
- Minerais críticos e terras raras
- Combate ao crime organizado transnacional
- Continuidade das negociações sobre produtos brasileiros afetados por tarifas americanas
- Situação política na América Latina
Fontes diplomáticas brasileiras destacam a importância do encontro para fortalecer a relação bilateral entre os dois países. A comitiva que acompanhará Lula deve incluir representantes de vários ministérios, incluindo Relações Exteriores, Justiça e Segurança Pública, Fazenda, Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, além da Polícia Federal.
O contexto tarifário permanece delicado. Após a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubar as tarifas anteriores impostas por Trump, o presidente americano anunciou uma nova taxa global temporária de 10%, elevando posteriormente para 15%. Desde terça-feira, 24 de janeiro, os EUA passaram a aplicar uma tarifa adicional de 10% sobre produtos brasileiros.
Fim da jornada de trabalho 6x1
Nos próximos dias, Lula deve se reunir com ministros para definir a estratégia do governo sobre o fim da jornada de trabalho 6x1, um dos temas prioritários para este ano eleitoral. O governo avalia se enviará um projeto próprio ao Congresso ou apoiará alguma proposta já em tramitação.
Apesar de o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), já ter encaminhado uma Proposta de Emenda à Constituição sobre o tema para a Comissão de Constituição e Justiça, o governo prefere a via de projeto de lei com urgência, por considerar esse caminho mais rápido e eficiente.
Antes de viajar para a Ásia, Lula orientou seus auxiliares a agirem com cautela e critérios rigorosos nas discussões sobre a jornada de trabalho. A expectativa é que o presidente faça uma avaliação final após seu retorno a Brasília e defina os próximos passos do governo neste tema sensível, que tem grande repercussão nas redes sociais e potencial para se tornar um dos principais motes da campanha de reeleição.
Ministros cotados para o Senado
O governo também se movimenta para formar chapas competitivas para o Senado, considerada uma prioridade tanto pela base governista quanto pela oposição. Entre os ministros cotados para disputar vagas na Casa estão:
- Gleisi Hoffmann (PT), ministra da Secretaria de Relações Institucionais
- Simone Tebet (MDB), ministra do Planejamento
- Rui Costa (PT), ministro da Casa Civil
- Marina Silva (Rede), ministra do Meio Ambiente
- Carlos Fávaro (PSD), ministro da Agricultura e Pecuária
- Silvio Costa Filho (Republicanos), ministro de Portos e Aeroportos
Nos próximos dias, Lula deve se reunir com a ministra Simone Tebet para definir sua participação na disputa eleitoral. Tebet afirmou que deixará o cargo até 30 de março e que o presidente sinalizou interesse em que ela dispute uma vaga ao Senado por São Paulo.
Pela legislação eleitoral brasileira, ministros que desejam concorrer a cargos eletivos precisam se desincompatibilizar até 4 de abril, seis meses antes das eleições. Este prazo pressiona o governo a tomar decisões rápidas sobre o futuro político de seus principais nomes.



