Emendas Pix financiam shows milionários em pequenas cidades do Brasil
Emendas Pix bancam shows caros em cidades pequenas do Brasil

Emendas Pix viram 'cheque em branco' para shows luxuosos em municípios pequenos

As emendas parlamentares, conhecidas como Pix, têm se destacado no orçamento da União como um mecanismo que permite a deputados e senadores liberarem recursos federais diretamente para municípios, com facilidade e baixa transparência. Criado em 2019 para agilizar investimentos em políticas públicas, o sistema rapidamente se consolidou como uma ferramenta que as prefeituras usam para financiar uma variedade de projetos locais, sem a necessidade de apresentar justificativas detalhadas para as despesas.

Shows de renome nacional em cidades com poucos habitantes

Uma reportagem da VEJA revela que as emendas Pix estão sendo usadas por prefeitos do interior do Brasil para levar shows de artistas famosos a municípios pequenos, muitas vezes com menos de 30 mil habitantes. Esses eventos frequentemente têm um forte caráter de propaganda eleitoral, com gestores locais subindo aos palcos para discursar à população, e são contratados a cachês exorbitantes, considerando o tamanho das apresentações.

Em 2025, mais de 61 milhões de reais saíram dos cofres federais para bancar espetáculos desse tipo. Os dados, levantados junto aos Portais da Transparência da União e das prefeituras, mostram o alcance dessa prática. Por exemplo, em Malhador, Sergipe, o astro do forró Wesley Safadão recebeu 900.000 reais para se apresentar na Festa de Março, em homenagem a São José, padroeiro da cidade com pouco menos de 12.000 habitantes. Se cada morador pagasse um ingresso de 75 reais, ainda assim não seria suficiente para cobrir o custo do cachê.

Recursos liberados por parlamentares em diversas regiões

A cifra quase milionária em Malhador não foi bancada pelos cofres municipais, mas por uma emenda parlamentar autorizada pelo deputado federal Rodrigo Valadares, do União Brasil. No mesmo estado, a dupla Iguinho e Lulinha, sucesso regional do forró e piseiro, se apresentou na Festa de Reis de Macambira e na Festa do Vaqueiro de Porto da Folha, faturando 400.000 reais por cada show em municípios de 7.000 e 27.000 habitantes, respectivamente.

Os recursos para esses eventos foram liberados via emendas Pix pelo deputado federal Ícaro de Valmir, do PL, e pelo senador Rogério Carvalho, do PT. No caso de Porto da Folha, o petista também autorizou 480.000 reais para o cachê do cantor Amado Batista, que tocou no mesmo evento que a dupla forrozeira.

Exemplos em outros estados e o impacto na transparência

No Acre, o município de Epitaciolândia, com população inferior a 20.000 moradores, teve a popstar gospel Isadora Pompeo como atração principal da 4ª Semana Evangélica. O show custou 250.000 reais apenas para o cachê da artista, inteiramente financiado por uma emenda parlamentar assinada pela deputada Antônia Lúcia, do Republicanos. Ao todo, a parlamentar repassou quase 1,5 milhão de reais para a semana gospel e um circuito country no mesmo município.

Na Bahia, em Caatiba, outros 250.000 reais foram pagos ao cantor Vitor Fernandes, o 'Rei do Piseiro', para se apresentar durante as festividades juninas do município de 6.200 habitantes, em 2025. A verba foi autorizada pelo deputado federal Gabriel Nunes, do PSD, aliado do prefeito Humberto Antunes, em uma emenda parlamentar que destinou um total de 600.000 reais aos festejos da pequena cidade baiana.

Esses casos ilustram como as emendas Pix estão sendo usadas para financiar shows caros em cidades pequenas, levantando questões sobre transparência e o uso adequado dos recursos públicos. A prática, muitas vezes associada a interesses eleitorais, destaca a necessidade de maior fiscalização e justificativa para tais despesas, garantindo que o dinheiro federal seja aplicado de forma eficiente e em benefício real das comunidades.