Oposição protocola CPI 'Fura-Fila' contra gestão de João Campos no Recife
Os vereadores de oposição ao prefeito do Recife, João Campos, que também é presidente nacional do PSB, conseguiram oficializar nesta segunda-feira, 2 de março de 2026, o protocolo da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) intitulada 'Fura-Fila'. O colegiado, que reuniu o mínimo necessário de treze assinaturas, tem como objetivo investigar a gestão municipal em um caso de possível favorecimento administrativo ilegal em concurso público para o cargo de maior salário da cidade.
Caráter suprapartidário da investigação
O fato mais significativo da formação da CPI foi a assinatura de um vereador do PT, partido que oficialmente integra a base de apoio do PSB. Esta adesão foi amplamente utilizada pelos partidos opositores para legitimar a comissão, afirmando que ela possui "caráter amplamente suprapartidário, reunindo vereadores da oposição, independentes e também parlamentares de partidos que integram a base do prefeito João Campos".
Os vereadores signatários da CPI são:
- Thiago Medina (PL)
- Paulo Muniz (PL)
- Fred Ferreira (PL)
- Gilson Machado Filho (PL)
- Eduardo Moura (Novo)
- Felipe Alecrim (Novo)
- Alef Collins (PP)
- Alcides Teixeira Neto (Avante)
- Davi Muniz (PSD)
- Rubem (PSB)
- Flávia de Nadegi (PV)
- Jô Cavalcanti (PSOL)
- Osmar Ricardo (PT)
O caso que será investigado
A CPI tratará especificamente da nomeação irregular de Lucas Vieira da Silva para o cargo de procurador do município do Recife. A vaga era reservada a Pessoas com Deficiência (PCD), mas Lucas ficou apenas na 63ª posição do concurso e, quando realizou a prova, não possuía laudo de PCD e concorreu apenas às vagas de livre concorrência.
A nomeação, assinada pessoalmente pelo prefeito João Campos, foi publicada no Diário Oficial do Município em 23 de dezembro de 2025, estando em desacordo com o edital do concurso e causando prejuízo direto a outro candidato que tinha direito legítimo à vaga por já apresentar laudo de PCD quando realizou a prova.
Irregularidades no processo de nomeação
A nomeação ocorreu após um pedido de reclassificação feito por Lucas Vieira mais de três anos após a realização do concurso, que aconteceu em 2022 e foi homologado em junho de 2023. Em 29 de maio de 2025, Lucas solicitou a reclassificação para concorrer como PCD, pedido que foi negado por três procuradoras concursadas do município em decisões técnicas sucessivas.
Mesmo com as negativas técnicas, quando o caso foi encaminhado ao procurador-geral do município, Pedro Pontes - cargo comissionado indicado diretamente pelo prefeito João Campos - a situação foi completamente revertida. Apenas após forte repercussão negativa e intensa pressão popular, a gestão municipal decidiu revogar a nomeação irregular.
Suspicões de tráfico de influência
Os vereadores da oposição alertam para graves suspeitas de possível favorecimento do candidato, uma vez que Lucas Vieira é filho de uma procuradora do Tribunal de Contas do Estado e de um juiz que atua na vara de crimes contra a administração pública da capital. Fato ainda mais preocupante: em novembro de 2025, apenas um mês antes da nomeação de Lucas, este mesmo juiz anulou os atos da Operação Barriga de Aluguel, que investigava a gestão de João Campos por possível desvio de verbas no valor de 500 milhões de reais.
Para a oposição, o caso infringiu múltiplos dispositivos legais, incluindo:
- Lei Orgânica do Município
- Lei de Improbidade Administrativa
- Decreto-Lei 201
- Código Penal brasileiro
Contexto político e próximos passos
Esta não é a primeira iniciativa da oposição contra João Campos no Recife. Em fevereiro, os vereadores chegaram a ler um pedido de impeachment em seu desfavor, mas não conseguiram dar seguimento ao processo por falta de apoios suficientes na Câmara Municipal.
O próximo passo agora será a definição da composição da comissão - quais vereadores efetivamente participarão das investigações - e o estabelecimento do período de trabalho da CPI. A comissão terá como missão principal encontrar indícios concretos de favorecimento pessoal e tráfico de influência no processo de nomeação irregular.
A instalação desta CPI representa mais um capítulo na crescente tensão política na capital pernambucana, onde a oposição vem sistematicamente questionando as ações da gestão municipal liderada por João Campos, que acumula as funções de prefeito do Recife e presidente nacional do PSB.



