Sessão da Câmara de Niterói termina em tumulto após aprovação de título para Ludmilla
A sessão da Câmara de Vereadores de Niterói que aprovou o título de cidadã honorária do município para a cantora Ludmilla terminou em completa confusão na terça-feira (3). A proposta, apresentada pela vereadora Benny Brioli (PSOL), foi aprovada por 8 votos a 6, mas o placar dividido desencadeou uma série de acusações entre os parlamentares, culminando no encerramento antecipado da sessão.
Acusações sobre letras de músicas e questionamentos políticos
Quando o resultado da votação foi anunciado, vereadores do Partido Liberal (PL) protestaram veementemente, questionando o conteúdo das letras das músicas da cantora, que foi a principal atração do réveillon de Niterói neste ano. Os parlamentares citaram sucessos como "Bota" e "Verdinha", afirmando que as composições fazem apologia ao crime e ao uso de drogas. Além disso, os opositores argumentaram que a medida não havia sido devidamente discutida no colégio de líderes da casa legislativa.
A vereadora Benny Brioli foi ao microfone para defender a homenagem, destacando o papel importante que Ludmilla desempenha na sociedade brasileira. "Não aceitam ver uma mulher preta, pobre e favelada crescer e ganhar o próprio dinheiro e hoje ser um dos maiores nomes da música popular brasileira, é um racismo que está colocado diante da sociedade", declarou Brioli durante a sessão.
Confronto direto entre vereadoras e acusações de desrespeito
A vereadora Fernanda Louback (PL), autora da lei conhecida como "Anti-Oruam" – que proíbe o uso de verba pública na contratação ou divulgação de espetáculos abertos a menores que façam apologia ao crime ou uso de drogas –, afirmou que Ludmilla infringiu esta legislação durante o show que realizou na virada do ano na cidade, contratado pela prefeitura.
"Impressionante que hoje parece que é crime no Brasil você ser branco. Eu acho que isso é crime hoje. Vocês me desculpem por ter nascido. Inclusive, meu avô materno é negro. E o outro lado da família é alemão. É uma mistura danada. Todo mundo no Brasil é miscigenado. Eu fui contra o título pelo que foi feito na cidade de Niterói", afirmou Louback em seu pronunciamento.
Logo após a fala de Fernanda Louback, a sessão foi interrompida com reclamações de que Benny Brioli estava gravando um vídeo falando sobre a aprovação do título durante o discurso da colega. Parlamentares acusaram Brioli de quebra de decoro parlamentar, gerando ainda mais tensão no plenário.
"Sabe o que é engraçado? Defende tanto o povo negro e olha a cor do cabelo hoje", afirmou Louback durante a discussão, em referência ao cabelo alourado que Benny Brioli – uma mulher trans negra – usava na sessão. A discussão escalou rapidamente, com assessores se aproximando dos vereadores para evitar possíveis agressões físicas, o que levou ao encerramento da sessão por falta de condições adequadas para continuar.
Debate se estende para as redes sociais
Nas redes sociais, Fernanda Louback anunciou que vai abrir uma representação na Comissão de Ética contra Benny Brioli. Ela definiu a votação como uma manobra política e reiterou que a artista descumpriu uma lei municipal. Louback destacou que Brioli debochou e tentou desestabilizá-la enquanto ela falava em plenário, comportamento que considerou incoerente com o cargo de presidente da Comissão Permanente de Direitos Humanos, da Mulher, da Criança e do Adolescente.
"Estamos falando de coerência, de respeito às leis aprovadas nessa casa legislativa. Hoje, perdemos a votação por 8 a 6. Isso faz parte da democracia. Mas a democracia também exige postura. Durante a minha justificativa de voto, a vereadora ficou debochando, tentando falar mais alto que eu e dizendo que eu não sei perder. Mas não é sobre saber perder, é sobre saber se comportar", afirmou Louback em suas redes sociais.
Por sua vez, Benny Brioli também utilizou as plataformas digitais para se manifestar, afirmando que sofreu uma tentativa de silenciamento e intimidação durante a sessão. "Foram para cima, aos gritos, tentando transformar o plenário em palco de tumulto. Não conseguiram. Por 8 votos a 6, o título foi aprovado. E isso diz muito. Diz que, apesar do barulho, a cultura periférica avança. Diz que a representatividade incomoda, e por isso mesmo é necessária. Diz que não vão nos silenciar no grito", declarou a vereadora do PSOL.
