Prefeito do Recife arquiva CPI com manobra política após vereador do PT apoiar investigação
O prefeito do Recife, João Campos (PSB), executou uma manobra política que resultou no arquivamento de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra sua gestão. A ação ocorreu após o vereador Osmar Ricardo (PT), presidente municipal do partido, assinar o pedido de investigação, mesmo com o PT fazendo parte da base de apoio do prefeito.
Exoneração estratégica e consequências imediatas
Poucas horas após o protocolo da CPI na Câmara de Vereadores do Recife, Campos exonerou o secretário de Direitos Humanos e Juventude, Marco Aurélio de Medeiros Lima (PV). A decisão foi divulgada nas redes sociais do prefeito e publicada no Diário Oficial do Recife na terça-feira, 3 de março de 2026.
Com a exoneração, Marco Aurélio retornou ao cargo de vereador pelo PV, ocupando a vaga que estava sob suplência de Osmar Ricardo. Como o petista perdeu seu mandato ao ser afastado, sua assinatura na CPI foi invalidada, levando ao arquivamento do pedido de investigação.
"Marco Aurélio Filho deixa a secretaria após uma contribuição importante, marcada pelo diálogo, sensibilidade e compromisso social. Agradeço pelo trabalho realizado e tenho certeza de que seguiremos alinhados, agora também na Câmara, na defesa das pautas que fazem o Recife avançar com mais justiça e oportunidades para todos", escreveu Campos em suas redes sociais.
Reação do vereador afastado e possíveis reviravoltas
Osmar Ricardo, que também preside o Sindicato dos Servidores Públicos do Recife (Sindsepre), afirmou que seu afastamento é "preço que paga por defender o povo do Recife". A CPI que ele apoiou tratava de um possível favorecimento ilegal em concurso público para procurador municipal.
Nos bastidores políticos, circula a informação de que a governadora Raquel Lyra (PSD), opositora de João Campos, estaria avaliando nomear outra vereadora do PV, Flávia de Nadegi, para abrir novamente a vaga de suplente para Osmar Ricardo. Isso permitiria que o petista retomasse seu mandato e desse andamento à CPI junto com outros colegas da oposição.
O caso que motivou a CPI
A investigação parlamentar proposta focava na nomeação irregular de Lucas Vieira da Silva para o cargo de procurador do município. A vaga era reservada a Pessoas com Deficiência (PCD), mas Lucas ficou na 63ª posição no concurso e, quando realizou a prova, não possuía laudo de PCD, concorrendo apenas nas vagas de livre concorrência.
A nomeação, assinada por João Campos e publicada no Diário Oficial do Município em 23 de dezembro de 2025, estava em desacordo com o edital do concurso e prejudicava outro candidato que já apresentava laudo de PCD durante a prova.
O caso ganhou complexidade quando se descobriu que:
- Lucas Vieira solicitou reclassificação como PCD mais de três anos após o concurso, realizado em 2022
- Três procuradoras concursadas do município negaram sucessivamente o pedido em decisões técnicas
- O procurador-geral do município, Pedro Pontes (cargo comissionado indicado por Campos), reverteu as decisões anteriores
- Após repercussão negativa e pressão popular, a gestão municipal revogou a nomeação
Questões legais e suspeitas de favorecimento
Para a oposição, o caso infringiu múltiplos dispositivos legais, incluindo:
- Lei Orgânica do Município
- Lei de Improbidade Administrativa
- Decreto-Lei 201
- Código Penal
Os vereadores também alertaram para suspeitas de possível favorecimento, uma vez que Lucas Vieira é filho de uma procuradora do Tribunal de Contas do Estado e de um juiz que atua na vara de crimes contra a administração pública da capital. Em novembro de 2025, um mês antes da nomeação de Lucas, esse juiz anulou os atos da Operação Barriga de Aluguel, que investigava a gestão de João Campos por possível desvio de verbas no valor de 500 milhões de reais.
A relação de suplência tem conexão direta com a federação partidária entre PT, PV e PCdoB, adicionando mais uma camada de complexidade a este embate político que continua a se desenrolar nos corredores do poder recifense.



