Rodrigo Bacellar: o deputado afastado que mantém o poder de paralisar a máquina do Rio
Bacellar: a pedra no sapato da direita fluminense

O exílio estratégico de Bacellar e seu poder nas sombras

Desde que se tornou alvo da Polícia Federal em dezembro, o presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar (União Brasil), permanece recluso em sua residência em Teresópolis, na região serrana do estado. Este exílio é autoimposto, mesmo após receber autorização do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, para frequentar sessões parlamentares após ser solto com tornozeleira eletrônica. O deputado preferiu entrar de licença, evitando mal-estar no plenário e focando em seu processo jurídico.

A peça-chave do xadrez político fluminense

Mesmo ausente fisicamente do feudo que um dia comandou, Bacellar continua sendo uma figura central no cenário político do Rio. Sua posição lhe confere poder para tanto resolver quanto complicar significativamente os planos da direita na eleição-tampão que se aproxima com a saída antecipada de Cláudio Castro (PL) do Palácio Guanabara. Conforme análise de um aliado de longa data, "ele tem a carta de jogo na mão", mantendo influência decisiva sobre os próximos passos da sucessão estadual.

O cenário ideal da direita e a resistência de Bacellar

Políticos do PL e uma ala do Centrão enxergam como cenário ideal a renúncia de Bacellar, embora evitem admiti-lo publicamente. Eles têm tentado convencê-lo a tomar essa medida, chegando a pedir ajuda ao governador Cláudio Castro nessa estratégia – que, no entanto, recusa envolver-se em assuntos ligados ao ex-aliado. A saída do deputado neutralizaria a possibilidade de o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto, prolongar-se no governo em caso de judicialização da eleição-tampão, situação que nem a base de Castro nem o próprio desembargador desejam.

Se Bacellar renunciar, a Alerj estará livre para eleger um novo presidente, que administrará o estado até a escolha do governador-tampão. Ricardo Couto já deixou claro aos deputados que, enquanto estiver provisoriamente no Palácio Guanabara, só aprovará despesas correntes, sem assinar "nem um cafezinho" além do estritamente necessário. Um colega do magistrado no Tribunal de Justiça descreveu Couto como um dos integrantes "mais sérios e corretos" da corte.

Os planos de retorno e as ambições políticas

Os planos de Bacellar, contudo, são outros. Segundo seus aliados, o deputado ainda sonha em reassumir a presidência da Assembleia Legislativa, encarando a renúncia como um suicídio político. Bacellar foi afastado do comando da Alerj por ordem do ministro Alexandre de Moraes devido a suspeitas de vazar informações de uma operação da Polícia Federal ao ex-deputado TH Joias, que teria ligações com o Comando Vermelho.

O deputado mantém esperanças porque, até o momento, a Polícia Federal não entregou ao STF um relatório da perícia em seu celular. Sua equipe jurídica interpreta a demora como um sinal positivo, acreditando que nenhuma prova contundente foi encontrada. Um pedido para revogar as medidas cautelares e autorizar seu retorno ao cargo está pendente no gabinete de Moraes, aguardando parecer do Ministípio Público Federal.

As articulações paralelas e o futuro político

Independentemente da decisão do ministro, Bacellar pretende sair do exílio e retomar agendas políticas. Ele segue como presidente do diretório estadual do União Brasil, que compõe com o PP a poderosa federação União Progressista, e tem articulado nas sombras a possibilidade de ocupar uma vaga no Tribunal de Contas do Estado. Outro caminho que poderá seguir este ano é o de uma candidatura a deputado federal, mantendo-se ativo no cenário político.

O temor da paralisia e as disputas internas

A última coisa que o PL deseja é paralisar a máquina do estado, sob seu controle, em ano eleitoral. Por isso, para o partido, que tem a maior bancada na Alerj, o ideal é que um político aliado assuma a presidência da Assembleia Legislativa e, consequentemente, o governo. O receio tem fundamento: PSD e PSOL já sinalizaram que questionarão na Justiça as regras da eleição indireta, recém-aprovadas no plenário, o que pode atrasar a escolha do substituto de Cláudio Castro.

Um dos pontos de debate é o prazo de desincompatibilização – a Alerj definiu 24 horas para candidatos deixarem cargos no Executivo, enquanto a oposição defende seis meses. O entorno do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), pré-candidato ao governo em outubro, move-se para travar uma guerra judicial em torno da eleição indireta, mantendo adversários o máximo de tempo possível sem acesso direto ao caixa do estado.

O desembargador relutante e as brigas internas

Terceiro na linha sucessória, Ricardo Couto acompanha as articulações à distância, do Palácio da Justiça. Magistrado há 34 anos, ele é resistente a assumir um papel político. Quando substituiu Cláudio Castro durante uma viagem à Europa, o desembargador ficou contrariado, tendo que desistir de visitar o Papa Leão XIV para não deixar o estado acéfalo. Não existe previsão legal para o presidente interino da Alerj, Guilherme Delaroli (PL), assumir o governo.

Toda essa confusão na política fluminense tem como base brigas dentro da aliança liderada pelo PL. Castro rompeu com o vice, Thiago Pampolha, que foi para o Tribunal de Contas do Estado para abrir espaço a uma candidatura de Bacellar a governador. No entanto, governador e deputado também racharam antes da operação da PF. Agora, Castro insiste que o partido lance o chefe da Casa Civil, Nicola Miccione, para o mandato-tampão e outro nome para concorrer em outubro.

As articulações de Paes e o jogo de Bacellar

Enquanto o PL não se entende, Eduardo Paes articula aliados no Centrão, não medindo esforços para atrair a federação PP-União Brasil e já fechando com o MDB. O presidente do Progressistas, Dr. Luizinho, repete nos bastidores que é fiel a Castro e não ao partido do governador. "Diante da briga no PL, a federação tende a liberar os apoios no Rio, seguindo um caminho nacional", afirma um cacique do grupo.

Bacellar, pelo menos até depois do Carnaval, vai jogar parado. "Ele foi reeleito para presidente da Alerj por unanimidade e entende que o melhor para a política é um político comandar o processo de sucessão", conta um amigo sobre o próprio deputado se considerar a melhor solução. Nos corredores da Alerj, é dado como fato que ele pode influenciar os próximos rumos, por ter pelo menos "dez deputados nas mãos", conforme afirma um experiente parlamentar. O cenário permanece confuso, mas a política do Rio já provou que sempre há espaço para novas surpresas.