Frasco de 1,9 mil anos na Turquia revela uso de fezes humanas na medicina romana
Uma descoberta arqueológica extraordinária na Turquia trouxe à luz a primeira evidência direta de que os romanos utilizavam excrementos humanos com fins medicinais. Um grupo de pesquisadores encontrou vestígios de fezes em um pequeno frasco com aproximadamente 1,9 mil anos de antiguidade, conforme detalhado em estudo publicado na revista Journal of Archaeological Science: Reports.
Análise química confirma conteúdo surpreendente
O Museu de Bergama, localizado próximo às ruínas da antiga cidade de Pérgamo, na província turca de Esmirna, conserva centenas de unguentários — recipientes pequenos, alongados e de gargalo estreito tradicionalmente usados para armazenar óleos, perfumes ou elixires. Cenker Atila, arqueólogo especializado em perfumes antigos da Universidade Republicana de Sivas, liderou a equipe que analisou sete recipientes diferentes, mas apenas um apresentou resultados conclusivos e verdadeiramente surpreendentes.
A análise química minuciosa revelou que o conteúdo do frasco era uma mistura de fezes, provavelmente de origem humana, combinadas com óleo de tomilho. A garrafa estava selada com argila antiga e teria sido retirada por saqueadores de uma tumba, razão pela qual sua origem exata permanece desconhecida. Atila relatou que, quando o frasco foi aberto, "não havia nenhum odor desagradável", mas durante o período em que ficou armazenado, ninguém prestou atenção aos resíduos em seu interior.
Da teoria à prática: confirmação histórica
Pérgamo, cidade de origem grega integrada ao Império Romano, abrigou um hospital reconhecido e foi o lar do célebre médico Galeno, que documentou extensivamente o uso de excremento na medicina greco-romana. O design do frasco analisado também aponta fortemente para essa região histórica. "Como conhecemos bem as fontes textuais antigas, reconhecemos imediatamente que se tratava de uma preparação medicinal utilizada pelo famoso médico romano Galeno", explicou Atila.
Os autores do estudo identificaram os compostos coprostanol e 24-etilcoprostanol, biomarcadores frequentemente presentes no trato digestivo de animais que metabolizam colesterol. A proporção específica desses compostos sugere que as fezes eram efetivamente de origem humana. Na medicina romana, registros históricos indicam que diversos remédios à base de fezes eram empregados para tratar uma ampla gama de enfermidades, incluindo:
- Inflamações e infecções diversas
- Transtornos reprodutivos
- Outras condições médicas da época
Mascarando o mau cheiro com ervas aromáticas
Os médicos romanos tinham plena consciência do repúdio que o uso de excrementos poderia causar entre os pacientes. Por essa razão, recomendavam consistentemente misturar a substância com aromas agradáveis para disfarçar o odor desagradável. A presença do óleo de tomilho no frasco descoberto representa justamente essa prática, constituindo a primeira evidência direta de que o mau cheiro era efetivamente mascarado com ervas aromáticas.
Os pesquisadores ficaram genuinamente surpresos com a descoberta: "Encontramos um medicamento que sobreviveu da Antiguidade até o presente. Encontramos excremento quando esperávamos um perfume", relataram. Esta descoberta arqueológica não apenas confirma textualmente as práticas médicas descritas por Galeno e outros autores clássicos, mas demonstra conclusivamente que tais remédios eram aplicados na prática clínica e não se limitavam a meras teorias escritas.
Os achados coincidem amplamente com as fórmulas descritas nas fontes históricas, sugerindo que a medicina romana incorporava elementos que hoje consideramos incomuns, mas que representavam abordagens terapêuticas sérias em seu contexto histórico. Esta descoberta abre novas perspectivas para a compreensão das práticas médicas antigas e sua evolução ao longo dos séculos.
