Elaine Pimentel: 30 anos transformando o sistema prisional de Alagoas com pesquisa acadêmica
Elaine Pimentel: 30 anos transformando sistema prisional com pesquisa

Trajetória acadêmica que transforma realidades no sistema prisional alagoano

A professora universitária Elaine Pimentel dedicou quase três décadas de sua vida profissional a transformar a pesquisa acadêmica em ferramenta concreta de mudança social, especialmente no sistema prisional de Alagoas. Com estudos focados no abandono de mulheres presas e no acompanhamento da transição do cárcere para a liberdade, sua atuação também foi fundamental no processo de fechamento do manicômio judiciário do estado.

Da formação acadêmica à direção da Faculdade de Direito

Natural de Alagoas, Elaine Pimentel encontrou no Direito sua vocação profissional e na pesquisa seu principal campo de atuação. "Eu me encontrei na pesquisa, na produção de conhecimento, nos projetos de extensão, na possibilidade de dialogar com a comunidade, levar algo para a comunidade e também receber muito da comunidade", afirmou em entrevista exclusiva.

Sua trajetória acadêmica inclui:

  • Graduação em Direito pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal)
  • Mestrado em Sociologia também pela Ufal
  • Doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
  • Atualmente em pós-doutoramento com vínculos em universidades europeias

Esta sólida formação a levou a ocupar uma posição histórica: tornou-se a primeira mulher a dirigir a Faculdade de Direito de Alagoas, instituição com 95 anos de existência, criada três décadas antes da própria Ufal. Elaine assumiu a direção em 2008 e atualmente está em seu segundo mandato.

"Eu espero que isso seja uma porta aberta para que outras mulheres sejam e que isso inspire as estudantes a ocupar esses espaços", destacou a professora, que mesmo com responsabilidades administrativas, afirma encontrar sua maior realização na sala de aula: "Cada nova turma renova em mim a esperança e o desejo de fazer algo diferente."

O olhar sensível para as mulheres no sistema carcerário

Com sensibilidade aguçada para as desigualdades de gênero, Elaine Pimentel assumiu uma pauta marcada por profundos estigmas sociais: a situação das mulheres no sistema prisional brasileiro. Inspirada pela filósofa Simone de Beauvoir, ela explica que "não se nasce feminista, torna-se", compreendendo o feminismo como um processo contínuo de conscientização.

Desde sua graduação, a pesquisadora realiza estudos dentro de unidades prisionais. Ao longo dos anos, identificou padrões recorrentes no encarceramento feminino:

  1. Separação traumática dos filhos
  2. Abandono sistemático por parte dos companheiros
  3. Histórico prévio de múltiplas violências

"O contrário não acontece. As mulheres permanecem fiéis na fila da visita para ver o companheiro preso", observou Elaine, destacando a assimetria de comportamentos entre gêneros no contexto prisional.

Utilizando metodologias de história de vida em suas pesquisas, a professora identificou trajetórias marcadas por violência na infância, abusos diversos, opressões estruturais, maternidade precoce e exclusão social crônica. "Há todo um histórico de violência que favorece o encarceramento", analisou.

Ela também critica a formação histórica do sistema de justiça brasileiro: "Todo o sistema de justiça foi preparado por homens e para homens. Os livros mais antigos tratavam a mulher no crime como aberração: a mulher delinquente, a mulher louca, a mulher prostituta."

Diante dessa lacuna histórica, Elaine dedicou-se a produzir conhecimento especializado sobre o tema, resultando em dois livros individuais e aproximadamente vinte obras coletivas que organizou ou nas quais contribuiu com artigos de sua autoria.

Contribuição decisiva para o movimento antimanicomial

Além de seu trabalho no sistema prisional convencional, Elaine Pimentel também se dedicou intensamente ao movimento antimanicomial em Alagoas. Seus estudos acadêmicos forneceram bases fundamentais para o fechamento do manicômio judiciário do estado, concretizado em 18 de agosto de 2025.

Este marco histórico cumpriu a Resolução 487 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que determina a aplicação da política antimanicomial no Poder Judiciário brasileiro. Com esta conquista, Alagoas tornou-se o segundo estado brasileiro a encerrar completamente as atividades manicomiais dentro do sistema prisional.

"Não é só fechar e entregar para a comunidade. Essas pessoas estavam ali há 20, 30 anos. Como é voltar para as famílias? Como é voltar a viver numa casa?", questionou Elaine, demonstrando a complexidade do processo de desinstitucionalização que acompanhou pessoalmente.

A professora resgatou um projeto de pesquisa que existia há sete anos para acompanhar este processo delicado. Para ela, o momento teve significado profundamente especial: "Passei quase 30 anos acompanhando inaugurações de presídios, o que na criminologia chamamos de expansão carcerária, expansão punitiva. Foi a primeira vez que eu fui para um fechamento. Isso, para mim, é muito interessante."

A trajetória de Elaine Pimentel exemplifica como a pesquisa acadêmica rigorosa, combinada com compromisso social profundo, pode gerar transformações concretas em sistemas complexos como o prisional e o de saúde mental, especialmente quando abordados com sensibilidade às questões de gênero e direitos humanos fundamentais.