Censo Escolar 2025 revela cenário misto na educação brasileira
Os dados do Censo Escolar 2025, divulgados nesta quinta-feira (26) pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), apresentam um panorama complexo para a educação básica no Brasil. Apesar de uma queda vertiginosa de 1 milhão de alunos matriculados em comparação com 2024, dois pilares fundamentais continuaram a registrar avanços significativos: a educação integral e o ensino técnico, especialmente integrado ao novo ensino médio.
Educação integral avança, mas recursos federais despencam
A jornada estendida nas escolas, onde os estudantes passam no mínimo 35 horas por semana no colégio, é vista por especialistas como uma alternativa crucial para:
- Diminuir a evasão escolar, estreitando os laços do aluno com a comunidade escolar;
- Melhorar a formação pedagógica, cultural, esportiva e cidadã das crianças e adolescentes;
- Possibilitar tempo maior para reforço de habilidades de leitura e matemática;
- Reduzir o risco de exposição à violência, especialmente entre os mais vulneráveis.
De 2024 a 2025, em todas as etapas, houve um aumento, mesmo que discreto, na porcentagem de alunos matriculados em tempo integral, principalmente na rede pública. No entanto, um dado alarmante chama a atenção: em 2025, os repasses diretos da União ao programa de tempo integral caíram de forma muito acentuada em comparação com anos anteriores.
Os valores passaram de cerca de R$ 2,1 bilhões em 2023 e R$ 2,5 bilhões em 2024 para apenas R$ 75,8 milhões em 2025. Essa redução drástica ocorreu principalmente por uma mudança na legislação, com a aprovação da Emenda Constitucional nº 135/2024, parte do pacote de ajuste fiscal.
Os recursos para fomentar o programa passaram a ficar vinculados ao Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica), transferindo a responsabilidade para estados e municípios. A partir de 2026, prefeitos e governadores passaram a ter de aplicar ao menos 4% da verba do fundo em iniciativas relacionadas ao fomento das matrículas em tempo integral.
"É uma responsabilidade que entra dentro de um dinheiro que eles já recebiam antes. Precisamos acompanhar essa repercussão e ver se os avanços vão se sustentar. Tivemos uma evolução recente importante", afirma Gabriel Corrêa, diretor de políticas públicas da ONG Todos Pela Educação.
Ensino técnico registra crescimento expressivo
No Novo Ensino Médio, parte da carga horária dos estudantes é dedicada a "itinerários formativos": são "trilhas" de aprofundamento em áreas escolhidas pelos próprios jovens. Uma das alternativas é justamente a Educação Profissional e Tecnológica (EPT), na qual entra o ensino técnico.
A intenção é que os jovens aliem o currículo básico do ensino médio a formações profissionalizantes, que os preparem melhor para o mercado de trabalho. Considerando três categorias – educação técnica associada ao ensino médio, magistério/normal e ensino técnico integrado à Educação de Jovens e Adultos (EJA) –, houve um incremento de cerca de 208 mil novas matrículas de 2024 para 2025, passando de 1.082.146 para 1.290.081.
A maior parte dos alunos está em escolas estaduais (75% do total). Em seguida, aparecem os institutos federais (19%), a rede privada (4%) e as escolas municipais (0,8%).
Outros destaques preocupantes do Censo Escolar 2025
O levantamento também revelou cenários desafiadores para a educação brasileira:
- Número elevado de professores temporários: Mais de 813 mil profissionais tinham este tipo de vínculo em 2025, representando cerca de 42,6% de todos os docentes em atuação na educação básica. Na rede estadual, os temporários são maioria (48,6%) e ultrapassam os efetivos (48,5%).
- Queda no índice de professores com licenciatura: Embora 96,1% dos professores tivessem formação docente em 2025, a taxa era maior em 2024 (96,85%). Além disso, apenas 4,04% dos professores de educação básica tinham mestrado, e aqueles com doutorado eram 1,13%.
- Aumento de alunos pretos e pardos: Os dados raciais mostram crescimento significativo na presença de estudantes pretos e pardos na educação básica. Por exemplo, nos anos iniciais do ensino fundamental, a fatia de alunos pardos passou de 41,37% em 2024 para 45,15% em 2025, um aumento de mais de 545 mil estudantes em números absolutos.
Em contrapartida, o número de estudantes considerados amarelos foi menor em 2025 em toda a educação básica. Dos quase 42,5 milhões de alunos considerados neste recorte, apenas 153.569 eram amarelos. Na creche e no ensino médio, houve um aumento no número de matrículas de indígenas, mas esses alunos não representaram nem 1% do corpo discente em nenhuma das etapas.
O Censo Escolar 2025, portanto, traça um retrato de avanços em áreas específicas, mas também evidencia desafios estruturais que demandam atenção urgente das autoridades educacionais e da sociedade como um todo.



