Presidente Lula intensifica foco em pautas femininas após queda no apoio eleitoral
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem concentrado esforços em agendas voltadas às mulheres nos últimos meses, em uma estratégia clara para reconquistar o eleitorado feminino, segmento no qual perdeu vantagem nas pesquisas mais recentes de intenção de voto.
Mais de dez ações em 2024
Somente nos primeiros meses deste ano, o mandatário participou de mais de dez iniciativas direcionadas a esse público, incluindo seminários, cerimônias oficiais e a publicação de medidas específicas. Em todas essas ocasiões, esteve acompanhado da primeira-dama Rosângela da Silva, conhecida como Janja, que, segundo assessores do Palácio do Planalto, exerceu influência significativa na ampliação dessas temáticas na agenda presidencial.
Um dos episódios mais emblemáticos foi a realização do Pacto contra o Feminicídio, firmado entre os três Poderes da República após uma série de crimes brutais ganharem repercussão nacional. O evento simbolizou um compromisso institucional com a proteção das mulheres.
Queda nas pesquisas impulsiona mudança
A mudança de postura coincide com dados preocupantes para o governo. A última pesquisa Datafolha revelou que Lula perdeu a vantagem que mantinha entre o eleitorado feminino. Em março, em um cenário de segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o presidente contava com o apoio de 50% das mulheres, contra 37% do adversário. Já em abril, essa diferença de 13 pontos se transformou em um empate técnico, com 47% dos votos femininos para Lula e 43% para Flávio Bolsonaro, considerando uma margem de erro de três pontos percentuais.
Medidas legislativas e ações concretas
Desde o segundo semestre do ano passado, a frequência de compromissos com temas femininos aumentou consideravelmente. Nesse período, foram sancionadas mais de cinco leis com benefícios diretos ou indiretos para as mulheres, incluindo um pacote com três projetos relacionados à violência de gênero.
Entre as principais medidas estão:
- Uso imediato de tornozeleira eletrônica para agressores condenados
- Tipificação do crime de vicaricídio, que é o assassinato de filhos ou parentes como parte da violência doméstica
- Aprimoramento do funcionamento do Ligue 180, canal de denúncias
- Instituição do dia 17 de outubro como Dia Nacional de Luto e de Memória às Mulheres Vítimas de Feminicídio
- Regulamentação da profissão de doula, profissional que acompanha gestações e partos
Influência de Janja e discursos presidenciais
A primeira-dama tem sido uma voz ativa na defesa dessas causas. Em evento realizado em Pernambuco, em dezembro de 2023, Lula relatou emocionado: "Eu acordei domingo para tomar café e no café a Janja começou a chorar. De noite, vendo o Fantástico, a Janja voltou a chorar. Ontem, ela voltou a chorar. E hoje, no avião, ela pediu para mim: 'Assuma a responsabilidade de uma luta mais dura contra a violência do homem contra a mulher no planeta Terra'".
Desde então, o presidente passou a incluir o tema da violência contra a mulher em praticamente todos os seus discursos públicos, demonstrando uma mudança retórica significativa.
Contradições e desafios persistentes
Apesar do foco recente, o governo Lula ainda enfrenta críticas por contradições. O ministério permanece majoritariamente masculino, com apenas oito mulheres ocupando pastas entre os 38 cargos disponíveis. Após a saída de ministras para disputar eleições, quatro foram substituídas por homens, reduzindo ainda mais a representatividade feminina no primeiro escalão.
Além disso, o presidente optou por indicar apenas homens para as duas vagas que preencheu no Supremo Tribunal Federal (STF), frustrando expectativas de setores da sociedade que cobravam maior diversidade na mais alta corte do país.
O histórico de declarações machistas de Lula também permanece como um ponto sensível. Em abril do ano passado, ele se referiu à diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, como "mulherzinha", e no mês anterior havia comentado sobre nomear uma "mulher bonita" (referindo-se a Gleisi Hoffmann) para "melhorar a relação" com o Congresso.
Iniciativas no esporte e eventos simbólicos
O governo também buscou dar visibilidade às mulheres no esporte, encaminhando ao Congresso um projeto de lei com medidas para a realização da Copa do Mundo Feminina da FIFA 2027 no Brasil. Durante a cerimônia do Tour da Taça da Copa do Mundo no Planalto, havia a intenção de receber também o troféu da Copa Feminina, mas problemas logísticos impediram a concretização do plano.
Em fevereiro, o Palácio do Planalto promoveu um seminário contra o feminicídio para servidores da Presidência, organizado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (Conselhão). O evento teve salas separadas para homens e mulheres, com Janja e Lula participando de palestras em seus respectivos grupos.
A estratégia de aproximação com o eleitorado feminino mostra-se como uma resposta direta aos números das pesquisas, mas especialistas questionam se as ações recentes serão suficientes para reverter a percepção negativa acumulada ao longo do mandato.



