Economista destaca preparo de Flávio Bolsonaro e cenário fiscal desafiador
Em análise sobre o cenário político e econômico brasileiro, o economista Gesner Oliveira, fundador da GO Associados e professor da Fundação Getulio Vargas, afirmou que o senador Flávio Bolsonaro estaria mais preparado que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, para comandar o país. Segundo ele, Flávio poderia implantar medidas inspiradas no presidente argentino Javier Milei, conhecido por sua plataforma ultraliberal e promessas de cortes profundos na máquina pública.
Disputa polarizada e herança fiscal complexa
A necessidade de um forte ajuste fiscal para estabilizar e reduzir a dívida pública se imporá ao próximo presidente, independentemente de quem vença as eleições de outubro. Tudo indica uma disputa polarizada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca seu quarto mandato, e Flávio Bolsonaro, herdeiro político do pai, agora inelegível e condenado pelo Supremo Tribunal Federal.
Gesner Oliveira ressalta que o Brasil herdará uma bomba fiscal, com a relação dívida/PIB subindo cerca de 10 pontos percentuais nos últimos anos. "Muitos investidores estrangeiros olham com preocupação essa evolução", disse o economista, destacando que a falta de reformas estruturais, como as tributária, trabalhista e da previdência, pode levar a uma grande fuga de capital.
Preparo político e possíveis medidas
Diferentemente do pai, que delegou a condução da economia ao ministro Paulo Guedes, Flávio Bolsonaro estaria convencido da necessidade de um ajuste fiscal forte. "Se Flávio vencer, estará muito mais preparado para governar que o pai", afirmou Gesner. Ele acredita que um plano econômico inspirado no governo de Javier Milei poderia ser implementado, aproveitando uma bolha de credibilidade no início do mandato.
Entre as medidas necessárias, o economista citou:
- Uma emenda constitucional para desvincular gastos obrigatórios com educação e saúde
- Desindexar os gastos previdenciários do salário-mínimo
- Atrelar o reajuste do salário-mínimo a ganhos de produtividade
- Grandes cortes de gastos públicos
Cenário com vitória de Lula e instinto de sobrevivência
Caso Lula seja reeleito, Gesner aposta que o instinto de sobrevivência política o levaria a ajustar as contas, mesmo que a contragosto. "Se o dólar bater nos 8 reais e a inflação disparar, Lula terá que tomar alguma medida", explicou. No cenário mais provável, Lula teria uma minoria no Congresso, o que dificultaria a governabilidade.
O economista traçou dois possíveis caminhos para Lula:
- Radicalizar, como fez João Goulart nos últimos dias de governo
- Seguir o caminho do primeiro mandato e encontrar um novo "Henrique Meirelles" para conduzir a economia
Gesner destacou que o Brasil tem um "mínimo senso de responsabilidade", chegando à beira do abismo, mas sem pular. "Se Lula ganhar, não deixará a economia explodir", afirmou.
Base congressual e contrapesos internacionais
Flávio Bolsonaro poderia contar com uma base sólida no Congresso, sendo o primeiro presidente com maioria consistente desde 2010. Isso lhe daria votos suficientes para promover mudanças significativas. Já Lula enfrentaria um Congresso mais fragmentado e resistente.
Na esfera internacional, Gesner comentou a decisão da Suprema Corte americana de anular o tarifaço de Donald Trump, vendo-a como um contrapeso positivo que reforça a estabilidade das instituições. "Isso mostra que há um limite ao poder imperial do presidente americano", disse, acrescentando que a confrontação que impõe limites a Trump é melhor do que a ausência de freios.
O economista concluiu que, apesar dos desafios, o Brasil tem a capacidade de evitar crises extremas, mas precisa avançar com reformas para reter investimentos e garantir a sustentabilidade fiscal.