A inflação continua sendo um divisor de águas na política brasileira, desmistificando a ideia de monopólio da defesa dos pobres. Com 45% da população dependente de auxílio estatal e eleitores sentindo a perda do poder de compra, o projeto de reeleição de Lula enfrenta um cenário desafiador. A alta de preços impacta diretamente a percepção de empobrecimento.
Inflação e pobreza na política
O ator italiano Ugo Tognazzi, conhecido por filmes como A Gaiola das Loucas, definiu inflação como ser pobre com muito dinheiro no bolso. Ele sobreviveu à miséria da Itália fascista e testemunhou a opulência europeia. Enquanto isso, na América do Sul, a pobreza se tornou mercadoria política. No Brasil e na Argentina, houve uma disputa pelo monopólio da defesa dos pobres, com líderes trabalhistas demonizando candidatos 'ricos', 'neoliberais' ou 'dos patrões'.
O Plano Real e a mudança de rumo
Esse discurso fez Lula ser favorito nas pesquisas para a eleição presidencial de 1994, com média de 30 pontos à frente de Fernando Henrique Cardoso. No entanto, o Plano Real, lançado em julho, mudou o cenário. Com inflação beirando 240% ao ano, a estabilidade da moeda permitiu que a maioria pobre vislumbrasse o fim da servidão à inflação. Lula apostou no fracasso do plano e, ao cair nas pesquisas, disse: 'Se Jesus fosse candidato, geraria as mesmas expectativas que eu'. Ele perdeu a eleição em dezesseis semanas, derrotado no primeiro turno por quase 30 pontos, situação repetida em 1998.
Mudança no método de luta política
Agora, há indícios de mudança no método de luta política. Diminuiu a estridência na defesa dos pobres. Isso não ocorre por virtude de políticos eleitos com promessas de resgatar os 'mais humildes', mas porque, após quatro décadas de discursos sobre redistribuição de renda, a população pobre aumentou significativamente, obrigando o Estado a multiplicar a assistência social.
Dependência estatal
No mês passado, 95 milhões de pessoas estavam inscritas no Cadastro Único da clientela do governo. Isso significa que 45% dos brasileiros precisam do auxílio estatal para sobreviver. Seis em cada dez dessas pessoas podem votar em outubro, totalizando 63 milhões de eleitores, donos de quatro em cada dez votos disponíveis.
O risco da reeleição
Lula apostou o quarto mandato nessa massa, repetindo a fórmula de 2006. Ampliou programas sociais a um custo recorde de quase 200 bilhões de reais, mas foi surpreendido pela indiferença dos eleitores. A apatia deriva do entendimento de que a ajuda estatal é obrigatória, independentemente de quem governa. O exemplo de Jair Bolsonaro foi eloquente: ele elevou o valor do Bolsa Família para 600 reais por mês, mas ainda assim perdeu a eleição para Lula.
Inflação e percepção de empobrecimento
Hoje, como em 2022, o projeto de reeleição está em risco principalmente porque a inflação alta, visível nos preços dos alimentos, remete à perda do poder de compra. Pesquisas da Quaest mostram que, desde dezembro, sete em cada dez brasileiros de todas as faixas de renda afirmam que seu poder de compra é menor do que um ano atrás. Eles sentem no bolso o peso da alta nos preços dos alimentos, reflexo da instabilidade causada pelas guerras na Ucrânia e no Irã e pelos desequilíbrios nas contas públicas domésticas. O custo da cesta básica subiu continuamente nas 27 capitais, segundo o Dieese. Embora a renda média tenha aumentado no ano passado, a sensação real é de pobreza.
O drama eleitoral de Lula
O drama eleitoral de Lula está na travessia das próximas vinte semanas num cenário de preços em alta constante, consequência das dificuldades na oferta de energia (petróleo e gás), fertilizantes, chips, plásticos e outros insumos essenciais. Ao eleitor resta o otimismo. Como dizia Ugo Tognazzi, otimista é aquele que, sem dinheiro no bolso, vai ao restaurante e pede ostras na esperança de encontrar uma pérola para pagar a conta.



