O Peso Econômico da Violência: Como o Crime Organizado Afeta Empresas e Crescimento
A recente escalada de violência no estado mexicano de Jalisco, marcada por carros queimados bloqueando entradas de lojas em centros comerciais, reacendeu um alerta crucial sobre o poder do narcotráfico na América Latina. Enquanto a presidente do México, Claudia Sheinbaum, afirma que a normalidade está sendo restabelecida e a segurança garantida, especialistas econômicos veem um cenário que inspira extrema cautela e traz paralelos inevitáveis com a realidade brasileira.
Uma Engrenagem Bilionária de Difícil Desmontagem
O professor Ricardo Rocha, coordenador de finanças do Insper, destaca que o crime organizado já movimenta fatias relevantes do Produto Interno Bruto mundial. Ele cita um dado impressionante: aproximadamente 80 milhões de americanos consomem drogas sintéticas ligadas diretamente a cartéis mexicanos, evidenciando uma engrenagem bilionária e complexa de desarticular. No Brasil, a situação não é menos preocupante.
Segundo estudos da Polícia Militar de São Paulo citados por Rocha, as facções criminosas podem envolver, de forma direta ou indireta, até 30 milhões de brasileiros. "É gente demais para ignorar", alerta o especialista. O problema, em sua análise, muitas vezes tem origem na ausência de oportunidades. Sem acesso a educação de qualidade e crescimento econômico consistente, parte significativa da população acaba sendo atraída para atividades ilícitas, tornando-se posteriormente refém do próprio sistema criminoso que ajudou a fortalecer.
Violência como Fator Econômico Pesado e seus Custos Extras
A violência decorrente do crime organizado não se restringe a uma questão de segurança pública; representa também um fator econômico de peso considerável. O economista David Martins, da Brazil Wealth, enfatiza que abrir uma filial em áreas dominadas por facções exige custos extras substanciais com segurança. Esses gastos adicionais encarecem as operações empresariais e, consequentemente, afastam investimentos que poderiam impulsionar o desenvolvimento regional.
No Rio de Janeiro, por exemplo, serviços básicos como gás, TV a cabo e energia sofrem constantemente com ligações clandestinas, os populares "gatos". Em algumas regiões, essas conexões ilegais podem representar metade do consumo total, gerando prejuízos milionários para as empresas e refletindo a penetração profunda do crime no cotidiano.
Incerteza: O Maior Impacto sobre a Economia
Para Ricardo Rocha, o impacto mais significativo do crime organizado na economia é a incerteza que ele gera. Diferente dos riscos comuns de mercado, que podem ser previstos e mitigados com certa precisão, as ações das facções criminosas são imprevisíveis. Essa imprevisibilidade desarticula cadeias produtivas inteiras, interrompe o fluxo de mercadorias e serviços, e exerce pressão sobre variáveis econômicas fundamentais.
Juros, câmbio e crescimento econômico são diretamente afetados por essa instabilidade. A desconfiança de investidores, tanto nacionais quanto internacionais, aumenta em um ambiente onde a segurança não está garantida, elevando o custo do capital e freando a expansão dos negócios. O exemplo mexicano serve como um alerta contundente para o Brasil, onde o avanço das facções criminosas demanda políticas públicas eficazes que combinem segurança, educação e geração de oportunidades para conter essa espiral de violência e seus custos econômicos bilionários.