Investimentos em IA e defesa nos EUA concentram capital e pressionam outros setores
IA e defesa concentram investimentos nos EUA

Os investimentos em empresas de crescimento acelerado nos Estados Unidos estão cada vez mais concentrados em dois setores: inteligência artificial e defesa. A combinação entre a corrida global por tecnologia e o aumento das tensões geopolíticas transformou essas áreas no principal destino do capital de risco, enquanto startups de outros segmentos enfrentam um ambiente mais duro para captar recursos.

Concentração de capital redefine o venture capital americano

O movimento tem redesenhado o mapa do venture capital americano e aprofundado uma divisão no mercado. De um lado, companhias ligadas à IA, infraestrutura tecnológica, drones, softwares militares e sistemas autônomos; de outro, empresas tradicionais de tecnologia, consumo e serviços que lutam para justificar sua relevância diante da nova onda de investimentos. Dados recentes mostram que essa concentração não é pontual. Segundo relatório da OCDE, o clube de economias avançadas, mais da metade do capital de risco nos EUA em 2025 foi direcionado a empresas de IA.

Guerra e IA impulsionam o novo destino do dinheiro

A combinação entre os conflitos na Ucrânia, no Oriente Médio e a escalada da rivalidade tecnológica entre Estados Unidos e China acelerou a procura por empresas de defesa e inteligência artificial. O setor militar, em particular, vive um boom. Segundo levantamento da S&P Global, o investimento em startups de defesa alcançou níveis recordes, com cerca de US$ 29 bilhões em 2025, quase o triplo do registrado em 2020. Empresas como Anduril Industries, Shield AI e Palantir Technologies estão entre as principais beneficiadas, atraindo rodadas bilionárias e contratos públicos. A tendência ganhou ainda mais força nesta semana, com o Departamento de Defesa propondo um orçamento recorde de US$ 54 bilhões voltado à guerra baseada em IA, incluindo drones autônomos e sistemas de comando automatizados. Na prática, o dinheiro está seguindo dois vetores: crescimento acelerado e relevância estratégica.

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Mercado cria duas velocidades

O resultado é um mercado de investimentos em duas velocidades. Para startups ligadas à IA, há liquidez abundante e avaliações infladas. Empresas do setor conseguem captar grandes volumes de recursos mesmo em estágios iniciais. Nos demais segmentos, o cenário é oposto. Startups de software corporativo, fintechs, varejo digital e consumo têm encontrado um ambiente mais seletivo, com investidores exigindo crescimento mais rápido, rentabilidade e, cada vez mais, algum componente de inteligência artificial no negócio. A pressão é tão forte que muitas empresas passaram a reposicionar sua narrativa para se aproximar da febre da IA.

Um dos casos mais emblemáticos foi o da Klarna, que antes de sua abertura de capital reforçou o discurso de empresa de pagamentos baseada em inteligência artificial, conseguindo levantar cerca de US$ 1,4 bilhão. Em outro exemplo que chamou atenção do mercado, a fabricante de calçados Allbirds anunciou uma guinada para infraestrutura de IA, levando a uma disparada momentânea de mais de 500% nas ações, apesar das dúvidas sobre fundamentos. Esse tipo de movimento mostra como a IA se tornou não apenas uma tecnologia, mas uma chave de acesso ao capital.

Juros altos e incerteza agravam o quadro

A concentração dos investimentos também reflete um ambiente macroeconômico ainda difícil. Com os juros americanos permanecendo elevados, o custo do dinheiro segue alto. Isso afeta tanto empréstimos corporativos quanto a disposição de fundos em assumir risco. Ao mesmo tempo, a janela de IPOs ainda não se normalizou completamente, o que dificulta a saída dos investidores e reduz o apetite por novas apostas. Segundo análise recente da KPMG, embora o volume global de venture capital tenha permanecido forte, o crescimento foi fortemente puxado por grandes rodadas em IA, enquanto outros setores continuam mais fracos. Em outras palavras, o capital não desapareceu. Ele apenas ficou mais concentrado.

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O risco da concentração

Especialistas alertam que esse movimento pode criar distorções. Quando boa parte do capital se concentra em poucos temas, há risco de inflação de valuations, formação de bolhas e escassez de recursos para inovação em outras áreas, como saúde, educação, clima e consumo. Ao mesmo tempo, investidores argumentam que se trata de uma realocação racional diante da maior transformação tecnológica da última década. A inteligência artificial deixou de ser uma promessa e passou a ser vista como infraestrutura econômica, comparável ao que foram a internet, a nuvem e os smartphones em ciclos anteriores. O desafio para empresas fora desse eixo será provar que conseguem crescer e manter relevância em um mercado cada vez mais dominado pela lógica da IA e da segurança estratégica.