A conta chegou: por que a fusão Arezzo e Soma virou guerra bilionária?
Fusão Arezzo e Soma: guerra bilionária e crise na Azzas 2154

A união entre Arezzo e Grupo Soma, anunciada em 2024 como a criação de um império da moda, transformou-se em uma guerra bilionária. Pouco mais de um ano depois, a Azzas 2154, holding resultante da fusão, enfrenta uma crise profunda: disputa judicial entre os sócios, fuga de executivos, queda nas vendas e perda de valor de mercado. Nos bastidores, o racha é tratado como irreversível.

O sonho do império da moda

De um lado, o universo polido e corporativo de marcas como Schutz e Arezzo; do outro, o DNA cool carioca da Farm, Animale e Reserva. A promessa era criar uma potência capaz de enfrentar a concorrência asiática, acelerar aquisições e redefinir o varejo de moda na América Latina. No entanto, o que parecia uma união estratégica se transformou em um dos conflitos empresariais mais rumorosos do setor.

Choque de culturas e egos

Nos bastidores da Azzas 2154, a convivência entre Alexandre Birman e Roberto Jatahy nunca foi simples. O embate que veio a público na semana passada — envolvendo o comando da Reserva e uma disputa judicial entre os dois empresários — escancarou uma crise que já corroía a companhia desde os primeiros meses de integração. Quem acompanha o grupo de perto descreve a operação como um caso clássico de choque entre culturas. Enquanto Birman era visto internamente como um executivo controlador e centralizador, Jatahy tinha perfil mais flexível e informal. A combinação, que no papel parecia complementar, acabou produzindo desgaste constante.

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A aproximação entre os dois começou anos antes, durante a disputa pela Hering, vencida pelo Soma em 2021. Depois disso, o relacionamento permaneceu cordial até Birman passar a defender uma união entre as companhias. Inicialmente resistente, o Soma acabou cedendo em meio às mudanças tributárias trazidas pela Lei das Subvenções, que pressionavam suas margens. O acordo criou um conglomerado com dezenas de marcas e faturamento bilionário. Mas, antes mesmo da assinatura definitiva, já havia atritos sobre quem mandaria no quê.

Primeiras baixas e queda nas vendas

A escolha dos executivos da nova estrutura virou o primeiro campo de batalha. Jatahy defendia avaliações independentes para os cargos mais altos; Birman sustentava que, como CEO da nova empresa, a palavra final seria dele. O desconforto cresceu rapidamente. Entre acionistas e executivos ligados ao antigo Soma, espalhou-se a percepção de que a operação vendida ao mercado como fusão funcionava, na prática, como uma aquisição disfarçada. A tensão teria chegado a tal ponto que consultores envolvidos na integração sugeriram que o negócio não avançasse. Ainda assim, a união foi sacramentada com cerimônia na B3, fotos oficiais e discurso otimista.

Poucas semanas depois, começaram as baixas. Rony Meisler, fundador da Reserva, deixou o grupo. Outros executivos importantes seguiram o mesmo caminho. Ao menos nove nomes estratégicos saíram desde então, incluindo profissionais encarregados justamente de harmonizar as culturas das duas empresas. Enquanto isso, os números passaram a piorar. A Azzas viu vendas recuarem em diferentes divisões, perdeu valor de mercado de forma acelerada e hoje vale menos na Bolsa do que Arezzo e Soma separadamente antes da fusão. Entre as marcas, apenas o braço feminino herdado do Soma conseguiu manter crescimento.

Pressão sobre equipes e críticas internas

Nos corredores da companhia, surgiram críticas à obsessão por metas agressivas de faturamento. Há relatos de pressão intensa sobre equipes comerciais e políticas de descontos consideradas excessivas. Um dos episódios mais comentados envolveu a Farm: após uma sequência de promoções, as lojas teriam ficado sem estoque suficiente e precisaram interromper operações temporariamente no início do ano.

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Rumores de separação e disputa judicial

Ao longo de 2025, os rumores sobre uma possível separação deixaram de ser especulação distante. A relação entre Birman e Jatahy passou a se resumir praticamente às reuniões formais do conselho. A saída de Ruy Kameyama, executivo visto como ponte entre os dois lados, aprofundou ainda mais a crise. O estopim veio quando Birman decidiu retirar a Reserva do núcleo de marcas cariocas do grupo — movimento interpretado por aliados de Jatahy como uma intervenção direta em seu território. O empresário reagiu levando a disputa à Justiça e acusando o sócio de comprometer sinergias importantes da operação.

Agora, a batalha deve seguir em arbitragem, enquanto o mercado já discute abertamente um possível desmembramento da companhia. O Itaú foi contratado para assessorar a Azzas na avaliação de alternativas estratégicas. A holding criada para simbolizar força, escala e futuro virou um retrato de como fusões bilionárias podem ruir quando vaidade, comando e cultura corporativa deixam de caber na mesma mesa.