Corrida milionária por vinhos raros no Brasil: lista fechada e burocracia
Corrida por vinhos raros no Brasil: lista fechada e burocracia

A série de sucesso da AppleTV+, "Seus amigos e vizinhos", trouxe à tona o universo dos vinhos raros e milionários. Na trama, o protagonista Andrew Cooper, interpretado por Jon Hamm, rouba uma garrafa de Domaine d’Auvenay Chevalier-Montrachet Grand Cru, um vinho branco da Borgonha de produção limitada. No Brasil, esse tipo de vinho é disputado em listas fechadas, e não basta ter dinheiro para adquiri-lo.

O mercado de vinhos raros no Brasil

O Brasil, desde os anos 1990, tornou-se uma rota cativa para grandes vinhos, mas com uma lógica peculiar. Aqui, ninguém simplesmente compra: é preciso disputar, esperar e ser observado. A regra é clara: quando chegam microalocações, a importadora pulveriza as garrafas para evitar especulação. Boa parte delas é vendida apenas uma por CPF, garantindo que o vinho seja aberto e apreciado.

Os vinhos mais disputados

Além do Domaine d’Auvenay, outros rótulos seguem a mesma dinâmica. O Romanée-Conti, por exemplo, é vendido com a condição de que a revenda pode levar ao exílio perpétuo da lista. O Sassicaia, mesmo com lotes generosos, também é comercializado de forma restrita. Grandes Bordeaux como Château Lafite Rothschild, Château Latour e Château Mouton Rothschild seguem o mesmo padrão. No caso do Pétrus, a importadora sequer ostenta preço online e, em ocasiões específicas, vende no máximo duas garrafas por pessoa.

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Burocracia e desafios na importação

Parte dos lotes é sacrificada em exames laboratoriais exigidos pelo Ministério da Agricultura (MAPA). Na entrada no país, uma garrafa é aberta para verificação da Receita Federal. Escapam dessa regra apenas os vinhos incluídos na lista oficial criada em 1996, chamada "Vinhos de Excepcional Qualidade". Essa burocracia impede a entrada de garrafas comemorativas caras, como o MCDXIX da Blandy’s, que custa 6.500 euros e não chegou ao Brasil por falta de verba para os testes.

Exemplos de vinhos raros no Brasil

Apesar das dificuldades, muitos grandes vinhos chegam ao país. O porto Graham’s 80 Years Old Tawny, por exemplo, custa cerca de 27.000 reais e tem importação de apenas três unidades por ano. Outros rótulos como Oremos Petrács 2017, Tondonia Branco e Rosé, Gaja e Biondi Santi também são vendidos com limite de uma garrafa por CPF. O Gran Enemigo Single Vineyard Gualtallary 2019, que recebeu 200 pontos de críticos, foi vendido por mais de um ano com a mesma regra, conforme explica Otávio Lilla, da importadora Mistral.

A visão dos especialistas

Bernardo Pinto, diretor técnico da Zahil, destaca que "escassez hoje se produz. Relevância, não". Para ele, um grande vinho sempre conta uma história: um solo, uma obsessão, uma família. Um exemplo é o Vin de La Solitude, de Châteauneuf du Pape, que custa 1.333 reais e reproduz uma receita de 200 anos. No Brasil, apesar da burocracia, ainda existe a esperança de que esses vinhos sejam abertos e apreciados, em vez de servirem apenas como ativos climatizados.

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