Vereadora de Alfenas enfrenta denúncias por declarações consideradas racistas
Moradores de Alfenas, no sul de Minas Gerais, protocolaram pedidos formais para a abertura de uma comissão ética e de uma comissão processante na Câmara Municipal. A ação ocorre após declarações feitas pela vereadora Maria Hidalina, do Partido Liberal (PL), durante uma manifestação pública realizada no último domingo, na Praça Getúlio Vargas. As falas da parlamentar foram amplamente classificadas como de teor racista por diversas instituições e cidadãos da cidade, gerando uma onda de indignação e demandas por responsabilização.
O discurso polêmico e a justificativa da assessoria
Durante seu discurso, a vereadora Maria Hidalina afirmou: “Nós temos um poder na nossa nação, nas nossas mãos, porque o nosso Brasil é um Brasil de cristãos (...). É um Brasil cristão, é um Brasil de 'povo bran...', povo brasileiro, que tem desejo de ser melhor (...).” A assessoria da vereadora emitiu uma nota explicando que houve um erro de fala, alegando que a intenção era dizer “povos brasileiros” ou “povo brasileiro”, mas que a parlamentar acabou pronunciando “povo ‘bran’”, corrigindo-se logo em seguida. A nota reforçou que “não houve intenção racista” e atribuiu o ocorrido a uma “falha de conexão na fala”.
Repúdio institucional e ações dos moradores
A Prefeitura de Alfenas, por meio da Coordenadoria de Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Racial, divulgou uma nota de repúdio oficial. O documento afirma que as declarações da vereadora “ferem direitos constitucionais da comunidade negra” e desrespeitam a laicidade do Estado, um princípio garantido pela Constituição Federal. Camila Leles, coordenadora da pasta, destacou que o vídeo foi analisado e confirmou a presença de “falas de cunho racista e que feriam a laicidade do país”.
Camila Leles ainda afirmou: “Nós vamos continuar acompanhando o caso. Se houver abertura da comissão, estaremos presentes para dar respaldo e garantir que a lei seja aplicada. As falas prejudicaram muito a comunidade negra. Estamos lutando por justiça e reparo, e tudo tem sido tratado como ‘mimimi’. Só quem passa sabe o que sente.”
O morador Rodrigo Miquelino, historiador de profissão, entrou com um pedido específico de abertura de comissão ética por quebra de decoro parlamentar. Ele argumentou que a fala da vereadora ultrapassa os limites da liberdade de expressão: “É inadmissível que uma autoridade eleita faça declarações que violam direitos humanos. Ao dizer que o Brasil é um país de ‘povo branco’ e associar isso a uma identidade religiosa, apaga a história dos povos negros e indígenas.”
Posicionamento do conselho municipal e da Câmara
O COMPIRA (Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial), que é composto por membros da sociedade civil e do poder público, também protocolou um pedido de comissão processante. Em sua manifestação, o conselho ressaltou: “A fala gera violência simbólica. Trata de não pertencimento de pessoas negras, quilombolas e indígenas. Não buscamos punição, mas educação. Esse tipo de episódio legitima bullying, violência e racismo cotidiano.”
A Câmara Municipal de Alfenas divulgou uma nota afirmando que considera o letramento racial e a liberdade religiosa como elementos essenciais para promover o respeito, a igualdade e uma convivência democrática. A previsão é que a mesa diretora avalie os protocolos recebidos na próxima segunda-feira, mantendo o caso em acompanhamento contínuo.
Resposta da vereadora Maria Hidalina
Em nota oficial, a vereadora Maria Hidalina declarou que não teve intenção de ofender nenhum grupo específico. A parlamentar se disse aberta ao diálogo e reafirmou seu compromisso com a população de Alfenas. Ela explicou: “Quando mencionei aspectos históricos e culturais do nosso país, minha intenção foi fazer referência à formação histórica do Brasil, que recebeu influências diversas, inclusive cristãs, sem negar nossa diversidade. Reconheço que a forma como a fala foi apresentada pode ter causado desconforto ou dor. Lamento sinceramente se feri alguém. Isso não reflete meus valores.”
O caso segue em análise, com a comunidade local e instituições aguardando os próximos passos formais da Câmara Municipal de Alfenas.