Os filhos do jornalista Vladimir Herzog, vítima emblemática da ditadura militar brasileira, alcançaram um importante reconhecimento oficial décadas após o assassinato do pai. Ivo e André Herzog foram declarados anistiados políticos pela Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
Um reconhecimento tardio da perseguição familiar
A decisão histórica foi tomada durante uma sessão da comissão realizada no dia 29 de janeiro de 2026. O relator do processo, o conselheiro Fábio de Sá e Silva, foi enfático ao votar pela concessão da anistia. Ele destacou que a violência sofrida por Vladimir Herzog em 1975, quando foi torturado e morto nas dependências do DOI-CODI em São Paulo, se estendeu como uma forma de perseguição a toda sua família.
Os irmãos Herzog tinham apenas 9 e 7 anos de idade, respectivamente, quando perderam o pai. O trauma e o medo gerados pela brutalidade do Estado e pela campanha de desinformação que se seguiu à morte de Vlado marcaram profundamente suas vidas. A decisão da comissão reconhece formalmente que eles também foram vítimas indiretas da repressão, sofrendo com a ausência paterna imposta pelo regime e com o estigma da perseguição política.
O legado de Vladimir Herzog e a luta por memória e verdade
Vladimir Herzog foi assassinado em 25 de outubro de 1975. A versão oficial da ditadura, amplamente desacreditada, alegou suicídio. No entanto, a farsa foi desmontada ao longo dos anos, e sua morte tornou-se um símbolo da resistência contra a arbitrariedade e a violência de Estado. A anistia concedida a seus filhos vai além de uma reparação simbólica; é um ato de justiça que afirma a responsabilidade do Estado na violação dos direitos de toda a família.
O processo movido por Ivo e André Herzog argumentou que a perseguição política não terminou com a morte do jornalista. A família precisou lidar com as consequências psicológicas, sociais e até com limitações práticas, como a dificuldade de obter documentos, em um clima onde o sobrenome "Herzog" era associado à oposição ao regime.
Reparação e o significado para o presente
Como anistiados políticos, Ivo e André Herzog têm direito a uma série de reparações previstas em lei, que incluem indenização pecuniária. No entanto, o significado mais profundo da decisão reside no reconhecimento oficial da verdade histórica. É a confirmação, por um órgão do Estado, de que a ditadura militar causou danos irreparáveis que atravessaram gerações.
Este caso reacende o debate sobre a importância da Comissão de Anistia e das políticas de memória e justiça de transição no Brasil. A concessão da anistia aos filhos de Herzog, quase 50 anos após o crime, mostra que as feridas da ditadura ainda demandam atenção e que a busca por reparação para as vítimas e seus familiares é um processo contínuo e necessário.
A decisão serve também como um alerta para o presente, reforçando a necessidade de se defender a democracia e os direitos humanos, garantindo que atrocidades como a que vitimou Vladimir Herzog nunca mais se repitam na história do país.