A atuação do Banco Central (BC) no caso envolvendo o Banco Master transformou-se no centro de uma disputa que, segundo analistas, ultrapassa os limites técnicos da regulação. O episódio ganhou novos contornos com a entrada do Tribunal de Contas da União (TCU) na discussão, levantando questionamentos sobre os motivos do interesse político em uma decisão de natureza técnica.
Fronteiras institucionais em xeque
Para economistas ouvidos pelo mercado, o BC cumpriu seu papel regulatório de forma adequada. No entanto, a movimentação do TCU é vista com preocupação. Lucas Ferraz, economista e coordenador do Centro de Negócios Globais da FGV, classifica a situação como, no mínimo, estranha. Ele argumenta que o TCU tem a função de fiscalizar contas públicas, e não de revisar a atuação do Banco Central sobre uma instituição financeira privada.
"Ao misturar essas fronteiras, o episódio lança uma sombra sobre a independência da autoridade monetária", afirma Ferraz. Ele destaca que essa independência é um dos poucos consensos institucionais consolidados nos últimos anos e uma peça fundamental para a estabilidade macroeconômica do país.
Risco sistêmico e reação do mercado
Outros especialistas vão além na análise dos riscos. Igor Lucena, economista e CEO da Amero Group, alerta que qualquer tentativa de enfraquecer as decisões do BC pode desmoralizar a instituição e ameaçar o funcionamento de todo o sistema financeiro. Segundo ele, se o mercado perceber que a autoridade monetária opera sob pressão política, o efeito pode ser imediato e devastador.
"Bancos grandes tendem a fechar a torneira no mercado interbancário", explica Lucena. Ele enfatiza que a confiança, que leva anos para ser construída, pode se dissipar em questão de minutos, com sérias consequências para a liquidez do sistema.
Não por acaso, entidades representativas do setor reagiram rapidamente. A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) e outras associações se manifestaram publicamente em defesa da autonomia do Banco Central. A mensagem do mercado financeiro é clara e unânime: atacar a independência do BC significa colocar em risco a espinha dorsal da credibilidade financeira nacional.
O pano de fundo do caso
O caso que desencadeou a polêmica tem como pano de fundo as ações regulatórias do Banco Central em relação ao Banco Master. A fotografia da fachada da instituição na rua Elvira Ferraz, no bairro paulistano do Itaim Bibi, registrada em 19 de novembro de 2025, tornou-se um símbolo deste embate. A discussão pública sobre o tema intensificou-se no início de janeiro de 2026, colocando em evidência a delicada relação entre técnica, política e a governança das instituições econômicas.
Os principais pontos de alerta levantados pelos economistas podem ser resumidos em:
- Desvio da função constitucional do TCU.
- Risco de erosão da independência do Banco Central.
- Possível perda de confiança no sistema financeiro interbancário.
- Ameaça à estabilidade macroeconômica conquistada nos últimos anos.
O desfecho deste embate institucional será crucial para definir se o país manterá um dos pilares considerados essenciais para a política econômica moderna e para a atração de investimentos: uma autoridade monetária autônoma e técnica, livre de interferências políticas circunstanciais.