Inflação de dezembro pressiona juros e Mercosul pode adiar corte da Selic
Economista prevê Selic alta até março por inflação e acordo Mercosul

O cenário econômico brasileiro para o início de 2026 não deve trazer alívio imediato nas taxas de juros. A análise é do economista e professor da FAC-SP, Rodrigo Simões, que participou do programa Mercado VEJA+ nesta sexta-feira, 9 de janeiro. Para ele, a combinação entre a pressão inflacionária típica do fim do ano e fatores externos, como possíveis avanços no acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, deve manter a política monetária restritiva.

Inflação de dezembro dentro do esperado, mas sem folga para o BC

Rodrigo Simões comentou que o aumento do IPCA em dezembro já era esperado pelos mercados. O economista explicou que o último mês do ano tradicionalmente concentra um maior consumo de bens e serviços, que vão desde viagens até festas e presentes de Natal e Réveillon.

Ainda assim, ele destacou um dado positivo: o índice acumulado em 12 meses fechou 2025 em 4,26%, ficando abaixo do teto da meta estabelecida pelo Banco Central e apresentando uma melhora em relação ao patamar observado no início do ano anterior. "Não é o melhor dos mundos, mas mostra que a política de juros elevados cumpriu seu papel", avaliou Simões durante a entrevista.

Por que o corte da Selic deve esperar até março?

Na visão do especialista, não há espaço para um corte da taxa básica de juros já nas reuniões de janeiro ou fevereiro de 2026. A aposta majoritária do mercado financeiro segue sendo o mês de março para o início de um ciclo de afrouxamento monetário.

Simões justifica a cautela. Ele aponta que a Selic deve se manter na faixa de 12% a 12,5% nos próximos meses com um objetivo claro: evitar que os gastos públicos típicos de um ano eleitoral exerçam uma pressão adicional sobre os preços, comprometendo o controle da inflação.

O fator externo: acordo UE-Mercosul na mira do Copom

Além do cenário doméstico, o economista chamou a atenção para um elemento internacional que pode influenciar as decisões do Banco Central, presidido por Gabriel Galípolo. Possíveis avanços nas negociações do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia são vistos com um olhar atento pelos formuladores de política monetária.

Simões alerta que tais estímulos adicionais à economia, embora possam impulsionar o emprego e a produção industrial, também têm o potencial de reacender pressões inflacionárias. "Isso pode levar o BC a manter os juros elevados por mais tempo", concluiu o professor, indicando que o Comitê de Política Monetária (Copom) precisará calibrar seus movimentos diante de um quadro complexo, que mistura riscos internos e oportunidades externas.

Dessa forma, a combinação entre a sazonalidade de preços, o calendário eleitoral e os desdobramentos da política comercial internacional desenha um primeiro trimestre de 2026 com pouca margem para manobras de estímulo por parte da autoridade monetária.