Economia da China desacelera mais que o esperado sob pressão da guerra no Irã e crise imobiliária
China desacelera mais que o esperado em meio a crises

A economia da China desacelerou de forma mais intensa do que o esperado em abril, em um sinal de que o país enfrenta dificuldades crescentes para sustentar sua recuperação enquanto aumenta a instabilidade no cenário internacional provocada pela guerra entre Irã e Israel. Dados divulgados nesta segunda-feira pelo Escritório Nacional de Estatísticas chinês mostram enfraquecimento em praticamente todos os principais indicadores da segunda maior economia do planeta: consumo, produção industrial, investimento e mercado imobiliário.

O desempenho ficou abaixo das expectativas de analistas e expôs a fragilidade da demanda interna chinesa, hoje considerada o principal problema estrutural do país.

Consumo desaba e acende preocupação em Pequim

O dado que mais chamou atenção foi o das vendas no varejo, principal termômetro do consumo das famílias. As vendas cresceram apenas 0,2% em abril na comparação com o mesmo mês do ano passado, forte desaceleração em relação aos 1,7% registrados em março. Foi o pior desempenho desde dezembro de 2022, período ainda marcado pelas restrições da política de “covid zero”.

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Economistas apontam que a fraqueza do consumo reflete um ambiente de insegurança entre as famílias chinesas, afetadas pela crise imobiliária prolongada, desemprego entre jovens e redução do ritmo de crescimento da renda. Nos últimos anos, o governo chinês tentou estimular compras com subsídios para carros, eletrodomésticos e bens eletrônicos. Parte desses programas, porém, foi reduzida em 2026, diminuindo o impacto sobre o consumo doméstico. Em relatório divulgado nesta semana, o banco Nomura afirmou que “a confiança do consumidor permanece extremamente fraca” e que famílias seguem priorizando poupança diante das incertezas econômicas.

Crise imobiliária continua travando economia

O setor imobiliário, responsável durante décadas por uma fatia relevante da economia chinesa, segue sendo um dos maiores focos de preocupação. Os investimentos em imóveis caíram 14% entre janeiro e abril na comparação anual. Já o início de novas construções despencou 22% no período. As vendas de imóveis em valor recuaram 15% nos quatro primeiros meses do ano.

A crise começou após o governo endurecer regras de endividamento para incorporadoras em 2020. Desde então, gigantes do setor como China Evergrande Group e Country Garden enfrentam dificuldades financeiras severas, afetando investimentos, empregos e confiança da população. Analistas do Goldman Sachs avaliam que o mercado imobiliário chinês ainda está distante de uma estabilização e pode continuar pressionando o crescimento pelos próximos anos.

Exportações ainda sustentam crescimento chinês

Apesar da deterioração interna, as exportações continuam sendo o principal motor da economia chinesa em 2026. As vendas externas cresceram 14% em abril na comparação anual, impulsionadas principalmente pela demanda por produtos eletrônicos, semicondutores e equipamentos ligados à expansão da inteligência artificial.

Esse desequilíbrio, porém, vem aumentando tensões comerciais com outras economias, especialmente os Estados Unidos e a União Europeia. Governos ocidentais acusam Pequim de ampliar sua dependência de exportações industriais subsidiadas enquanto o consumo interno segue enfraquecido. Segundo o economista Zhiwei Zhang, da Pinpoint Asset Management, “o desempenho forte das exportações ajudou a compensar a fraqueza doméstica, mas não foi suficiente para anulá-la completamente”.

Guerra no Irã amplia riscos para Pequim

O agravamento da guerra envolvendo o Irã adicionou uma nova camada de pressão sobre a economia chinesa. A China é uma das maiores importadoras de petróleo do mundo e depende fortemente do Oriente Médio para abastecimento energético. A alta recente do barril provocada pelo conflito elevou custos industriais e pressionou margens de lucro de fabricantes chineses. O índice de preços ao produtor, que mede inflação industrial, atingiu em abril o maior nível em 45 meses, refletindo o aumento nos custos de energia e matérias-primas.

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Autoridades chinesas admitiram preocupação crescente com os impactos geopolíticos. Fu Linghui, porta-voz do departamento nacional de estatísticas, afirmou que os “efeitos indiretos dos conflitos geopolíticos já começam a aparecer nos mercados de energia”.

Xi tenta projetar estabilidade em meio à pressão

A desaceleração econômica ocorre em um momento politicamente sensível para o presidente chinês Xi Jinping. Na semana passada, Xi recebeu o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em uma cúpula em Pequim marcada por discursos sobre “estabilidade estratégica” entre as duas maiores economias do planeta. Apesar do tom conciliador, poucos acordos concretos foram anunciados após a guerra comercial travada entre os dois países nos últimos anos.

Até agora, Pequim resiste a lançar um grande pacote de estímulos econômicos. O governo mantém a meta oficial de crescimento entre 4,5% e 5% em 2026 e aposta que exportações e investimentos industriais ainda serão suficientes para sustentar a atividade. Especialistas, porém, avaliam que o modelo chinês baseado em infraestrutura, indústria pesada e exportações começa a mostrar sinais mais profundos de esgotamento, especialmente diante do envelhecimento populacional, do endividamento elevado e da crescente tensão geopolítica com o Ocidente.