A crise energética global entrou em uma fase crítica, com o temor de que o conflito prolongado possa arrastar a economia mundial para uma recessão. Governos de quase 80 países já implementaram medidas emergenciais para proteger suas economias diante da pressão sobre os mercados de energia. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o número de nações que recorreram a ações extraordinárias saltou de 55 no fim de março para 76 nas últimas semanas.
Estreito de Ormuz sob ameaça
O principal receio do mercado é que o conflito comprometa ainda mais o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, corredor marítimo estratégico por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. O bloqueio parcial da região já provocou forte redução na oferta disponível e acelerou a queda dos estoques internacionais.
Petróleo a US$ 180: cenário extremo
Analistas e investidores passaram a discutir cenários extremos para o preço do petróleo caso o conflito continue se agravando. A gestora britânica Aberdeen afirmou estar avaliando um cenário em que o barril do petróleo Brent salte para US$ 180, nível que poderia provocar recessões em partes da Europa e da Ásia, além de acelerar a inflação mundial. O petróleo Brent já opera acima de US$ 105 por barril, patamar considerado elevado para economias importadoras de energia. Bancos como JPMorgan Chase e Morgan Stanley alertam que uma escalada militar prolongada pode gerar escassez física de combustíveis, paralisações industriais e ruptura em cadeias globais de suprimentos.
Déficit global de oferta
Especialistas afirmam que o mundo está consumindo atualmente muito mais petróleo do que consegue produzir. Estimativas da Agência Internacional de Energia apontam que a demanda mundial supera a produção em cerca de 6 milhões de barris por dia. Alguns analistas acreditam que o déficit real possa chegar a até 9 milhões diários.
Estoques globais em queda recorde
Para compensar a diferença entre oferta e consumo, governos e empresas passaram a retirar petróleo de estoques estratégicos em ritmo acelerado. Desde o início da guerra, as reservas globais encolheram cerca de 380 milhões de barris, segundo cálculos da Agência Internacional de Energia. Parte dessas reservas, porém, não pode ser usada facilmente porque está armazenada dentro da região do Golfo Pérsico, afetada diretamente pelo conflito. O problema preocupa porque muitos estoques considerados “disponíveis” são, na prática, necessários para manter refinarias, oleodutos e sistemas logísticos funcionando. Analistas afirmam que o mercado pode entrar em colapso operacional muito antes de os estoques chegarem perto de zero. O JPMorgan Chase estima que países da OCDE podem atingir níveis críticos de operação já nas próximas semanas.
Medidas de emergência se espalham
Governos começaram a ampliar políticas de contenção diante da ameaça de agravamento da crise. A Austrália anunciou um pacote de US$ 10 bilhões para reforçar estoques de combustível e fertilizantes. A França prometeu ampliar subsídios e programas de proteção econômica para reduzir o impacto da alta dos combustíveis. Na Índia, autoridades pediram à população que evite comprar ouro ou viajar ao exterior para preservar reservas em moeda estrangeira. Já países como Paquistão, Sri Lanka e Filipinas implementaram semanas de trabalho reduzidas para diminuir o consumo energético, repetindo medidas vistas durante a crise energética após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.
Aviação e indústria petroquímica sofrem
Os primeiros setores a sofrer os efeitos mais intensos da crise foram aviação, petroquímica e combustíveis refinados. Refinarias em diferentes regiões do mundo vêm reduzindo compras de petróleo bruto devido ao custo elevado da matéria-prima e ao aumento explosivo do frete marítimo. Com isso, estoques de gasolina, diesel e querosene de aviação começam a ficar mais apertados justamente no início do verão no hemisfério norte, período de maior demanda por viagens e uso de ar-condicionado. A combinação de demanda elevada e estoques em queda aumenta o risco de novos saltos nos preços nas próximas semanas.
Estagflação no horizonte
Economistas voltaram a discutir a possibilidade de uma nova onda de “estagflação”, cenário marcado por inflação alta combinada com baixo crescimento econômico. O receio é especialmente forte na União Europeia, altamente dependente de importações energéticas. O comissário europeu de Transportes, Apostolos Tzitzikostas, afirmou que uma recessão mundial “pode estar sobre a mesa” caso o conflito continue e o Estreito de Ormuz permaneça parcialmente bloqueado. Apesar disso, parte do mercado ainda aposta que a situação poderá se estabilizar nas próximas semanas, permitindo que o petróleo volte a operar abaixo de US$ 100 por barril. Analistas do Morgan Stanley afirmam que o crescimento da economia dos Estados Unidos, impulsionado pelo boom de investimentos em inteligência artificial, ainda pode ajudar a evitar um cenário mais severo. Mesmo assim, cresce entre investidores a percepção de que a economia mundial entrou em uma zona de alto risco, em que qualquer nova escalada militar poderá desencadear uma crise ainda mais profunda.



