Restrições a Saques em Fundos de Crédito Privado nos EUA Geram Alarme em Wall Street
Um movimento em cascata e crescente de limitações a saques em fundos de crédito privado nos Estados Unidos está renovando os temores em Wall Street sobre o risco de liquidez no segmento e a possibilidade de contágio para o sistema financeiro mais amplo. Grandes gestoras de recursos, como BlackRock, Blue Owl Capital, Morgan Stanley e, mais recentemente, Apollo Global Management e Ares Management, têm imposto travas a investidores receosos, ampliando o alarme em torno de um mercado que movimenta cerca de US$ 1,8 trilhão nos EUA.
Baratas e Cupins: A Metáfora de Jamie Dimon Volta à Tona
A série de anúncios nas últimas semanas trouxe de volta aos holofotes a fatídica fala do presidente do JPMorgan Chase, Jamie Dimon. Em outubro do ano passado, o banqueiro comparou falências do setor de crédito privado a baratas e alertou que havia mais delas nos balanços dos bancos americanos. Agora, especialistas como Mohamed El-Erian, conselheiro econômico-chefe da Allianz, questionam se o sistema lida apenas com baratas ou com cupins, que representariam riscos sistêmicos ao mercado.
"De discrepâncias de avaliação e tensões de liquidez a análises de crédito deficientes e fraudes, mais insetos estão saindo das frestas", escreveu El-Erian no início do mês, em meio à multiplicação de imposições de limites de saques. Ele descreve um cenário que chama de ATM ou caixa eletrônico, um fenômeno clássico de contágio onde investidores são forçados a liquidar outros fundos saudáveis. "Se você não consegue vender o que quer, vende o que pode", explica.
Gestoras em Ação: Limitações e Perdas Acumuladas
A Ares Management, com mais de US$ 600 bilhões em ativos sob gestão, limitou os saques de um de seus principais fundos de crédito em 5%, após receber pedidos de resgate que saltaram para 11,6% no primeiro trimestre. Dias antes da decisão, o Bank of America havia classificado a Ares como sua principal recomendação de compra no segmento de ativos alternativos.
No entanto, o acerto de contas da indústria tem pressionado as ações das gestoras:
- A Ares Management acumula perda de quase 10% em um mês e 37% no primeiro trimestre.
- A queda dos papéis da Blue Owl Capital supera 20% em um mês.
- Os da KKR registram declínio de quase 5%, após a Moody’s rebaixar um de seus fundos para junk.
Reguladores em Alerta e a Conjuntura Geopolítica
O tema ganhou reforço na lista de preocupações de órgãos reguladores em meio à escalada das tensões no Oriente Médio. O conflito, que se arrasta há quase um mês, provocou uma reviravolta hawkish nas expectativas dos investidores, que passaram a ver bancos centrais mais cautelosos com o risco inflacionário.
Hyun Song Shin, chefe do Departamento Monetário e Econômico do Banco de Compensações Internacionais (BIS), alertou que se a demanda por resgates em fundos de crédito privado continuar, a situação pode se agravar. "Sob condições extremas, a linha divisória entre liquidez e solvência pode se tornar tênue", reforça El-Erian, que ainda não vê o mercado nesta situação.
Bancos e Analistas Divididos sobre a Gravidade
Enquanto a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) redobra a atenção ao segmento, os grandes bancos americanos também reforçaram a cautela. O JPMorgan Chase tornou mais rigorosas as condições para fundos de crédito privado e reduziu o valor de alguns empréstimos, enquanto o Morgan Stanley limitou os resgates.
Para o Barclays, o crédito privado nos EUA enfrenta "problemas reais", especialmente no setor de software, mas as preocupações são "exageradas". Esses problemas, avalia o banco, evoluem lentamente, não são sistêmicos e são improváveis de desestabilizar os resultados macroeconômicos dos EUA em 2026. Barclays e Bank of America concordam que não se trata de uma repetição da crise financeira global de 2008.
"Não vejo nenhuma semelhança", disse o presidente da BlackRock, Larry Fink, em entrevista à BBC. "Zero", acrescentou. Segundo Fink, o problema atinge uma pequena fração do mercado geral e as instituições financeiras hoje são mais seguras. No entanto, o balanço do Jefferies trouxe perdas de US$ 17 milhões relacionadas a empresas falidas, mostrando que os riscos são palpáveis.



