Banco Central decreta liquidação do banco Pleno, ex-Voiter, após escândalo financeiro
O Banco Central (BC) decretou nesta quarta-feira (18) a liquidação extrajudicial do banco Pleno, anteriormente conhecido como Voiter, que já integrou o conglomerado do Banco Master, atualmente sob investigação por supostas fraudes financeiras. A instituição financeira, que enfrentava sérias dificuldades de liquidez e buscava desesperadamente um investidor para manter suas operações, foi proibida pelo BC de emitir novos Certificados de Depósito Bancário (CDBs) para se financiar, agravando ainda mais sua situação precária.
Contexto histórico e problemas financeiros
O Pleno fazia parte do conglomerado Master até julho de 2025, quando seu atual proprietário, Augusto Lima, desfez a sociedade com Daniel Vorcaro e assumiu o controle exclusivo do banco. Ambos os empresários foram presos no âmbito da Operação Compliance Zero, sendo posteriormente liberados com o uso de tornozeleira eletrônica. Segundo os últimos dados disponibilizados pelo Banco Central, referentes a junho de 2025, o ex-Voiter apresentava um patrimônio líquido de R$ 672,6 milhões e um lucro líquido de R$ 169,3 milhões. No entanto, o passivo da instituição alcançava a impressionante cifra de R$ 6,68 bilhões, sendo que a maior parte dessa dívida, aproximadamente R$ 5,4 bilhões, correspondia a CDBs.
Sem a possibilidade de se financiar através da emissão de novos CDBs, o pagamento dos compromissos financeiros do banco tornou-se extremamente difícil. Em nota oficial, o BC informou que o conglomerado do Pleno detém apenas 0,04% do ativo total e 0,05% das captações totais do Sistema Financeiro Nacional, indicando seu tamanho relativamente pequeno no cenário financeiro brasileiro.
Sequência de liquidações no setor
Esta não é a primeira liquidação determinada pelo Banco Central nos últimos meses. Em 18 de novembro, foi anunciada a liquidação do Master, do Master de Investimento, da Master Corretora e do Letsbank. Posteriormente, nos dias 15 e 21 de janeiro, foram liquidados a administradora de fundos Reag e o Will Bank, respectivamente. Os problemas do Pleno acompanham a instituição há anos, desde a época em que operava sob o nome Indusval e tinha outros controladores.
Voltado principalmente ao financiamento de empresas e do agronegócio, o banco passou por diversas reestruturações ao longo dos anos, sempre em meio a prejuízos significativos. Em 2019, numa tentativa de transformação digital, a instituição passou a se chamar Voiter. Sem sucesso nessa estratégia, a Capital Consig fez uma oferta para adquirir o Voiter em 2023, mas a operação não foi concretizada. Em fevereiro de 2024, o Master assumiu o controle da instituição.
Trajetória de Augusto Lima
A ascensão de Augusto Lima no mercado financeiro foi meteórica. Em menos de uma década, a partir da criação do Credcesta em 2018, ele saiu da Bahia, conquistou espaço na Faria Lima, em São Paulo, e expandiu seus negócios de crédito consignado para 24 estados e 176 municípios brasileiros. Em novembro de 2025, foi preso na Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes em carteiras de créditos que o Master vendeu ao Banco Regional de Brasília (BRB).
Segundo reconstituição baseada em documentos e relatos de pessoas próximas ao empresário, a trajetória que colocou Lima no centro do maior escândalo financeiro das últimas décadas envolve estruturas empresariais opacas, teias societárias complexas e articulações políticas. Nesse caminho, Lima utilizou diversos fundos em seus negócios e estabeleceu fortes laços com a Reag, instituição de fundos de investimento que foi alvo em agosto de 2025 da Operação Carbono Oculto, por suspeita de operar para o PCC, e posteriormente liquidada pelo Banco Central.
A PKL One, empresa controladora do Credcesta, recebeu aumento de capital de um fundo chamado Reag 34, posteriormente rebatizado como Diamond. Este fundo detém o controle da empresa e está sob a gestão da WNT, que foi citada na segunda fase da Operação Compliance Zero. Lima também declarou ganhos milionários em operações envolvendo ações da Akaa Empreendimentos e cotas do Murrien 41, que receberam investimentos do Hans 95, um dos fundos alvo da Operação Carbono Oculto.
Nascido em uma família de classe média de Salvador, onde é conhecido como "Guga" entre amigos, Lima cursou economia em uma universidade particular. Iniciou sua carreira vendendo abadás até ingressar no setor financeiro com a Terra Firme da Bahia, fundada em 2001 para atuar como correspondente de instituições financeiras. Nos anos seguintes, fundou outras empresas neste segmento e contribuiu para a criação das associações de servidores Asteba e Asseba, que prestavam serviços, inclusive financeiros, aos funcionários públicos.