Aumento histórico de 54,6% no querosene de aviação pressiona tarifas aéreas no Brasil
QAV tem maior alta da história e ameaça preços de passagens aéreas

Aumento recorde do querosene de aviação ameaça conectividade aérea no país

O aumento de 54,6% no preço do querosene de aviação (QAV) registrado de março para abril de 2026 representa o maior reajuste da série histórica iniciada em 2019, segundo levantamento da Broadcast com base em dados da companhia. Em meio ao choque do petróleo diante do conflito no Oriente Médio, o movimento reforça preocupações com o impacto direto sobre as tarifas aéreas e a demanda, que vinha apresentando crescimento consistente nos últimos meses.

Contexto histórico e comparações alarmantes

O segundo maior reajuste da série histórica ocorreu em abril de 2022, com avanço entre 18% e 20%, no início da guerra na Ucrânia. Em contraste, as variações mensais do QAV mantinham-se tradicionalmente entre 3% e 5% desde 2019, o que torna o atual aumento mais de dez vezes superior à média histórica. A alta de abril se soma ainda ao aumento de 9,4% registrado em março, criando um cenário de pressão cumulativa sobre o setor aéreo.

O QAV é o principal item de custo das companhias aéreas e passou a responder por cerca de 45% das despesas operacionais, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). "A medida tem consequências severas sobre a abertura de novas rotas e a oferta de serviços, restringindo a conectividade do País e a democratização do transporte aéreo", afirmou a associação em nota oficial.

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Impacto direto nas passagens aéreas

Para o analista de Transportes do UBS BB, Alberto Valério, a disparada do combustível cria um cenário mais desafiador para as aéreas, mas não necessariamente desastroso. O setor vinha de um período de melhora operacional, com demanda aquecida e saída de processos de reestruturação. "O Brasil é exportador de petróleo. Se a commodity sobe, a conta fiscal melhora, o dólar tende a cair e isso pode compensar, ao menos em parte, a alta do combustível", afirmou o especialista.

Valério estima que as companhias aéreas terão de elevar o preço das passagens entre 15% e 20% para compensar a alta do QAV, embora não necessariamente de uma só vez. Mesmo antes do anúncio oficial, a Azul já havia elevado em pouco mais de 20% os preços das passagens nas últimas semanas, com ao menos quatro reajustes recentes, segundo revelou o presidente da companhia, Abhi Shah. A empresa projeta alta de cerca de 8% na receita unitária ao longo do ano.

Reações das principais companhias aéreas

O diretor financeiro do Grupo Abra, controlador da Gol, Manuel Irarrázaval, classificou o aumento como moderado e afirmou que pode haver correção já em maio. "O preço global subiu mais, praticamente o dobro", disse durante teleconferência de resultados no dia 31 de março. O executivo destacou que cada aumento de US$ 1 por galão no preço do combustível representa impacto de cerca de US$ 70 milhões nas despesas mensais, equivalente a aproximadamente 10% da receita de passageiros.

O CEO do grupo, Adrian Neuhauser, acrescentou que parte do consumo está protegida por hedge, estratégia que visa suavizar a transição para o novo patamar de preços. Já o sócio-diretor da Macroinfra, Olivier Girard, avalia que o repasse é inevitável, mas os efeitos não serão vistos imediatamente. "O impacto sobre a demanda deve aparecer nos próximos meses, já que as passagens são vendidas com antecedência", afirmou. O especialista sugeriu ainda que uma alternativa seria a revisão ou suspensão de rotas menos rentáveis.

Medidas de mitigação em discussão

Diante desse cenário desafiador, o presidente da Abear, Juliano Noman, afirmou que iniciativas do governo são urgentíssimas para evitar replanejamento radical do setor. As empresas aéreas propõem medidas como:

  • Linhas de crédito específicas para o setor
  • Ajustes tributários temporários
  • Programas de compensação financeira
  • Facilitação de processos operacionais

O ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, afirmou que há diálogo responsável com a Petrobras, respeitando a independência da companhia. Segundo ele, o governo prepara medidas para mitigar o impacto do aumento sobre o setor aéreo, com anúncio esperado nos próximos dias.

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Proposta da Petrobras para parcelamento

A Petrobras informou que vai oferecer um termo de adesão para as distribuidoras reduzirem os efeitos imediatos do reajuste no QAV. A proposta permitirá que as empresas paguem um aumento de 18% em abril, porcentual significativamente menor que o reajuste de 54,8% previsto em contrato. A diferença restante poderá ser parcelada em até seis vezes, com primeira parcela a partir de julho de 2026.

As condições específicas ainda serão calculadas e o termo será disponibilizado ao mercado até segunda-feira, 6 de abril, segundo comunicado da estatal. "Essa medida visa preservar a demanda pelo produto e mitigar os efeitos do reajuste no setor de aviação brasileiro, assegurando o bom funcionamento do mercado", indicou a Petrobras em nota oficial.

O setor aéreo brasileiro, que vinha experimentando recuperação consistente após os desafios da pandemia, agora enfrenta novo teste de resiliência diante da maior alta histórica do seu principal insumo. A capacidade das empresas em administrar esses custos, combinada com as medidas de apoio governamental e as estratégias da Petrobras, determinará o impacto final sobre a conectividade aérea nacional e o bolso dos passageiros brasileiros.