Crescimento econômico surpreendente em 2025, mas desafios persistem para 2026
O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) apresentou um resultado surpreendente para o ano de 2025, registrando um crescimento de 2,5%. Este desempenho positivo foi puxado principalmente pelo forte avanço da agropecuária, que cresceu impressionantes 13,1%, e pela recuperação das atividades da indústria extrativa mineral. Ambos os segmentos demonstraram resiliência diante do cenário de restrição monetária que afetou o crédito no país.
Composição do crescimento revela vulnerabilidades
Entretanto, uma análise mais detalhada da composição deste crescimento revela pontos de atenção. A agropecuária, apesar do desempenho excepcional, representa apenas 5,8% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Da mesma forma, a indústria extrativa mineral corresponde a 4,5% do PIB. O setor de serviços, que é responsável por 59,2% do IBC-Br, registrou uma desaceleração de 0,3% em dezembro, contribuindo para uma queda geral de 0,2% no último mês do ano.
Mais preocupante ainda foi o carregamento de 0,1% para o primeiro trimestre de 2026, indicando que o ímpeto do crescimento pode estar perdendo força. Especialistas alertam que, sem uma redução mais rápida dos juros básicos da economia, a agropecuária – que deve ter uma safra de grãos estável ou com pequena queda frente a 2025 – não terá capacidade, juntamente com a extrativa mineral, para sustentar o PIB ao longo deste ano.
Projeções para 2026 e expectativas de queda da Selic
As projeções para o crescimento econômico em 2026 variam entre instituições financeiras. O Bradesco estima uma expansão de 1,5%, enquanto o Itaú projeta 1,9%. O que pode trazer algum alento para o setor de serviços, no entanto, são os sinais emitidos pelo mercado financeiro. A última pesquisa Focus revelou que as projeções de inflação continuam caindo semanalmente.
O mercado não apenas projeta uma queda de 0,50% na taxa Selic na reunião de 18 de março, como também renovou a expectativa de outra redução de 0,50% para o encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) em 29 de abril. Caso confirmadas, essas reduções levariam a Selic a 14,00% ao ano. Além disso, há apostas de que a taxa básica de juros fechará 2026 em 12%, conforme previsão do Bradesco – o Itaú, que em janeiro previa 12,75%, deve revisar sua projeção ainda em fevereiro.
Análise do Bradesco sobre câmbio e tarifas
Em análise conduzida pelo economista Vitor Araújo de Holanda Jó, do departamento de Estudos Macroeconômicos do Bradesco, destaca-se o comportamento surpreendente do dólar em 2025. "Em vez de se apreciar, como sugeriria uma leitura mais tradicional de choques tarifários, a moeda americana se desvalorizou de forma ampla", observa o estudo.
Esta desvalorização do dólar foi atribuída parcialmente a fatores políticos e institucionais, incluindo uma maior percepção de risco associada aos Estados Unidos. Independentemente das causas, o efeito macroeconômico foi claro: houve um afrouxamento relevante das condições financeiras globais. O Financial Conditions Index (FCI) mostra que, após um aperto pontual em abril, o câmbio passou a contribuir significativamente para a flexibilização das condições ao longo do restante do ano.
Este mecanismo ajudou a sustentar o apetite por risco, valorizou ativos e deu suporte ao crescimento tanto nos Estados Unidos quanto no resto do mundo. O estudo do Bradesco utiliza um modelo DSGE para demonstrar como um choque de prêmio de risco pode dominar o canal tradicional de paridade de juros, levando à depreciação do dólar e a efeitos expansionistas via condições financeiras.
Resiliência do crescimento global e lições de 2025
Outro fato relevante destacado pela análise foi a surpresa positiva do crescimento fora dos Estados Unidos. Diversas economias mostraram resiliência em vez de uma desaceleração sincronizada. Parte desta dinâmica pode ser interpretada como consequência direta do dólar mais fraco, que melhorou condições financeiras externas e facilitou o financiamento e o comércio internacional.
Os custos associados às tarifas se manifestaram mais como choques de eficiência e custos intermediários do que como um colapso da demanda. No modelo econômico, isso aparece como um aumento do custo marginal via insumos importados, pressionando a inflação de bens, mas sem gerar um choque inflacionário persistente no índice de preços ao consumidor agregado.
O estudo do Bradesco conclui com importantes lições da experiência de 2025:
- A diferença entre tarifas anunciadas e tarifas efetivas é crucial para a análise macroeconômica
- O dólar emergiu como a variável-chave do ano, funcionando como poderoso canal de transmissão via condições financeiras
- A política monetária respondeu mais à incerteza e aos riscos para a atividade do que aos movimentos aparentemente temporários da inflação de bens
Como fatores adicionais que atuaram como amortecedores em 2025, o estudo menciona: o ciclo de investimentos associado à inteligência artificial, que sustentou demanda e valuations; um impulso desinflacionário vindo da China, via bens comercializáveis e pressão competitiva sobre preços industriais; e a queda nos preços do petróleo, que ajudou a reduzir a inflação total e aliviou custos ao longo da cadeia produtiva.
O arcabouço apresentado ajuda a entender por que o choque tarifário, apesar de grande no anúncio, teve efeitos macroeconômicos bem menores do que muitos antecipavam, conclui a análise econômica.