O Departamento de Justiça dos Estados Unidos solicitou à Justiça federal o arquivamento definitivo das acusações de fraude contra o bilionário indiano Gautam Adani. A decisão, considerada rara e politicamente sensível, intensifica as críticas ao recuo do governo Donald Trump no combate a crimes corporativos. Adani, um dos homens mais ricos da Ásia e aliado próximo do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, havia sido acusado no final de 2024 de liderar um esquema bilionário de fraude e pagamento de propinas relacionado a contratos de energia solar.
Acordo paralelo com o Tesouro
Simultaneamente ao arquivamento do caso criminal, o governo americano anunciou um acordo separado de US$ 275 milhões (cerca de R$ 1,5 bilhão) com uma empresa fundada por Adani para encerrar investigações sobre possíveis violações de sanções econômicas contra o Irã. O Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) classificou as infrações como graves, apontando que a companhia adquiriu aproximadamente US$ 191 milhões em carregamentos de gás liquefeito de petróleo entre 2023 e 2025 por meio de um operador em Dubai, com suspeitas de origem iraniana. A Adani Enterprises aceitou pagar a multa sem admitir culpa.
Detalhes das acusações de fraude
Promotores federais alegavam que Adani e executivos de seu conglomerado organizaram um esquema de corrupção para garantir contratos de fornecimento de energia solar na Índia. Mais de US$ 250 milhões em propinas teriam sido pagos a autoridades indianas para assegurar contratos lucrativos por décadas. Além disso, o grupo teria ocultado informações relevantes de investidores e instituições financeiras dos EUA enquanto captava recursos no mercado internacional. O caso era tratado como uma das principais ações internacionais de combate à corrupção em mercados emergentes.
Mudança de postura do governo Trump
A desistência reforça a percepção de uma mudança radical na postura do governo Trump em relação à fiscalização de crimes financeiros e corporativos. Desde o retorno de Trump à Casa Branca, as autoridades americanas vêm reduzindo investigações envolvendo grandes empresas, Wall Street e executivos bilionários, em forte contraste com a política mais agressiva adotada durante o governo Joe Biden. A decisão gerou desconforto interno no Departamento de Justiça, com o pedido de arquivamento assinado por altos funcionários, mas sem incluir os nomes dos promotores responsáveis pela investigação, sinalizando possível resistência.
Comparações com outros casos
Juristas americanos comparam o episódio ao arquivamento do processo contra o ex-prefeito de Nova York, Eric Adams, também abandonado pelo governo Trump em meio a acusações de interferência política. A decisão é vista como mais um sinal de flexibilização do enforcement corporativo nos EUA, com prioridade para acordos financeiros, investimentos e interesses geopolíticos em vez de grandes processos de corrupção internacional.
Dimensão geopolítica
O caso ganhou dimensão geopolítica devido à proximidade entre Gautam Adani, Narendra Modi e setores próximos ao governo Trump. Adani tornou-se um dos empresários mais influentes da Índia, com forte presença em energia, infraestrutura, mineração, logística e portos. Críticos acusam Modi de favorecer o conglomerado Adani em grandes projetos nacionais, alegações negadas pelo grupo. Nos EUA, revelações indicam que advogados pessoais de Trump participaram da defesa do empresário indiano e que representantes de Adani discutiram investimentos de até US$ 10 bilhões na economia americana enquanto negociavam o encerramento do caso.
Analistas avaliam que Washington mantém pressão máxima sobre o Irã, ampliando sanções econômicas relacionadas ao setor energético, em meio ao agravamento das tensões no Oriente Médio. O episódio evidencia como investigações financeiras se cruzam com disputas diplomáticas, estratégias industriais e alianças políticas entre grandes potências.



