O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping, reuniram-se em Pequim na semana passada, resultando em um novo acordo comercial. A China se comprometeu a comprar pelo menos US$ 17 bilhões (cerca de R$ 86,1 bilhões) por ano em produtos agrícolas dos EUA, além da soja, durante três anos, conforme informou a Casa Branca no último domingo (17).
Detalhes do acordo
A promessa de US$ 17 bilhões, somada aos compromissos existentes com a soja, elevaria o total das importações agrícolas chinesas dos EUA para algo entre US$ 28 bilhões e US$ 30 bilhões (R$ 141,8 bilhões a R$ 152 bilhões) por ano, segundo operadores e analistas. Esse valor fica abaixo do pico de US$ 38 bilhões (R$ 192,5 bilhões) registrado em 2022, mas muito acima dos US$ 8 bilhões (R$ 40,5 bilhões) do ano passado e dos US$ 24 bilhões (R$ 121,6 bilhões) em 2024.
Para atingir essa meta, Pequim precisará ampliar significativamente as compras de trigo, grãos para ração, carne e produtos agrícolas não alimentícios, como algodão e madeira. Em outubro passado, a China já havia cumprido o compromisso de comprar 12 milhões de toneladas de soja, além de adquirir algum volume de trigo e grande quantidade de sorgo, após um acordo entre Trump e Xi. Como parte desse entendimento, a Casa Branca afirmou que a China compraria pelo menos 25 milhões de toneladas de soja por ano.
Redirecionamento das importações
O aumento das compras de produtos agrícolas dos Estados Unidos deve ocorrer às custas das exportações de fornecedores rivais. Segundo Cheang Kang Wei, vice-presidente da StoneX em Cingapura, alcançar US$ 17 bilhões anuais excluindo a soja provavelmente exigiria que a China redirecionasse intencionalmente as compras dos fornecedores existentes para os Estados Unidos por motivos políticos e estratégicos, e não puramente comerciais.
O Brasil, principal fornecedor de soja da China com 73,6% de participação em 2025, também se tornou o maior fornecedor de milho do país asiático. No ano passado, a China aprovou as importações de grãos secos de destilaria brasileiros (DDGS), ingrediente para ração animal. A Austrália, que foi o principal fornecedor de trigo da China em 2023 e de sorgo em 2025, pode enfrentar queda na demanda se o trigo e o sorgo dos EUA ganharem terreno. As importações de cevada também podem sofrer pressão, enquanto as maiores compras de carne bovina dos EUA podem reduzir a demanda pela carne bovina premium australiana na China. Outros grandes fornecedores, como Canadá e França (trigo) e Argentina (sorgo), também podem ter demanda reduzida.
Soja
Espera-se que a China comece a comprar soja dos Estados Unidos da nova safra para embarques a partir de outubro, já que os preços norte-americanos estão competitivos em relação aos brasileiros. Um especialista que negocia sementes oleaginosas afirmou que a compra de 25 milhões de toneladas de soja dos EUA não deve ser problema, pois os preços estão atraentes. As estatais Cofco e Sinograin devem liderar as compras enquanto a China mantiver uma tarifa adicional de 10%.
A China reduziu drasticamente sua dependência da soja dos EUA desde o primeiro mandato de Donald Trump. Em 2024, o produto norte-americano representou cerca de um quinto das importações chinesas, ante 41% em 2016.
Milho e trigo
É provável que os comerciantes estatais chineses continuem como principais compradores de milho e trigo dos EUA, já que recebem cotas de importação com tarifas reduzidas. A China possui cotas de importação de 9,64 milhões de toneladas para trigo e 7,2 milhões para milho, com tarifa de 1%. Compras que excedem essas cotas estão sujeitas a tarifas de até 65%.
Em 2025, a China comprou apenas US$ 5 milhões (R$ 25,3 milhões) em milho dos EUA, bem abaixo dos US$ 561,5 milhões (R$ 2,8 bilhões) do ano anterior. Os embarques foram interrompidos após junho. As importações de trigo caíram para quase zero em 2025, após somarem 1,9 milhão de toneladas (cerca de US$ 600 milhões, ou R$ 3 bilhões) em 2024.
Sorgo e DDGS
Espera-se que a China aumente as compras de grãos para ração, incluindo sorgo, após fortes chuvas prejudicarem a produção no norte do país em 2025. Diferentemente do trigo e do milho, o sorgo não está sujeito a cotas de importação. Desde novembro, Pequim comprou pelo menos 2,5 milhões de toneladas de sorgo dos EUA para compensar a escassez de milho no mercado interno. Já compras mais relevantes de DDGS dependeriam da suspensão das tarifas antidumping e antissubsídios em vigor desde 2017.
Carne
A China é um mercado importante para produtos como pés de frango, orelhas de porco e miúdos dos EUA — itens com pouca demanda no mercado americano. As importações de carne bovina e de aves dos EUA devem aumentar após Pequim indicar que os dois países trabalharão para resolver pendências comerciais.
Na sexta-feira, a China concedeu extensões de registro por cinco anos a 425 unidades produtoras de carne bovina dos EUA, que haviam sido suspensas após o vencimento das licenças no ano passado. Além disso, aprovou novos registros de cinco anos para outras 77 unidades. Pequim introduziu, em dezembro passado, um sistema de cotas para importação de carne bovina, com tarifa de 55% para volumes acima do limite, afetando os principais fornecedores, incluindo os EUA, com o objetivo de proteger a indústria local.
Produtos agrícolas não alimentícios
As importações chinesas também podem incluir produtos não alimentícios, como algodão e madeira. No caso do algodão, as compras caíram de US$ 1,85 bilhão (R$ 9,4 bilhões) em 2024 para US$ 225,7 milhões (R$ 1,1 bilhão) no ano passado.



