Bloqueio do petróleo: por que o cenário atual é menos catastrófico que os choques dos anos 1970
O confronto entre Estados Unidos, Israel e Irã mergulhou o mercado internacional de petróleo em uma zona de tensão extrema. Na terceira semana de hostilidades, o presidente americano Donald Trump passou a defender o envolvimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para conter o regime dos aiatolás, cujos ataques já haviam atingido instalações de petróleo e gás em onze países da região. A situação culminou com o fechamento do Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, rota estratégica responsável pela passagem de 20% do petróleo comercializado globalmente.
Impacto imediato nos preços e na economia global
A escalada do conflito, até o fechamento desta reportagem em 20 de março, mantinha o preço do barril do tipo Brent acima de 100 dólares, valor quase 40% superior ao período pré-guerra. Essa alta provocava fortes oscilações nas bolsas internacionais, inclusive no Brasil. Analistas avaliavam que, no curto prazo, Teerã manteria a estratégia de ampliar a instabilidade para elevar o custo econômico do conflito, com possibilidade de o barril de petróleo mais que dobrar nas semanas seguintes.
"A estratégia de Teerã é provocar um caos energético global capaz de pressionar governos e mercados", afirmou André Lajst, cientista político baseado em Tel Aviv, Israel. O movimento elevou o chamado prêmio de risco e intensificou o nervosismo entre investidores e autoridades financeiras em todo o mundo.
Os combates que incendiaram o Oriente Médio geraram ondas de impacto que se propagaram pelo planeta. As consequências vão muito além do encarecimento da energia e atingem rotas comerciais, padrões de viagem, alianças políticas e o custo de vida em diferentes regiões. Longe do campo de batalha, moradores de Daca, em Bangladesh, estocaram botijões de gás, enquanto turistas fugiam em meio a explosões na antes cintilante Dubai e agricultores no Hemisfério Norte refizeram os cálculos para a temporada de plantio da primavera.
Efeitos no Brasil: combustíveis e agronegócio na linha de frente
O agravamento da guerra produziu efeitos diretos no Brasil. Na sexta-feira 13 de março, a Petrobras anunciou um reajuste de 0,38 centavo por litro no diesel vendido às distribuidoras, o primeiro aumento em mais de um ano, elevando o preço médio para 3,65 reais. O movimento ocorreu após o governo anunciar, às pressas, um pacote de medidas para tentar conter a pressão inflacionária, problema particularmente sensível em ano de eleições.
Em anúncio feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o governo apresentou um plano incluindo:
- Eliminação temporária dos impostos federais PIS e Cofins sobre o diesel
- Criação de um subsídio direto a produtores e importadores
- Taxa extraordinária sobre exportações de petróleo bruto
"Quando o petróleo dispara, o primeiro canal de transmissão é imediato: sobem diesel e gasolina, e isso já é inflação", explica Adriano Pires, sócio-fundador da consultoria Centro Brasileiro de Infraestrutura. "O governo tenta amenizar com um pacote, mas o impacto começa nos combustíveis."
Embora seja hoje um dos dez maiores produtores de petróleo do mundo, o Brasil não está imune às oscilações do mercado internacional. A política de preços adotada pela Petrobras leva em conta as cotações no exterior, a taxa de câmbio e o custo de importação de derivados, parâmetros que buscam alinhar os valores domésticos às condições do mercado global.
Agronegócio sob pressão dupla
O efeito do aumento do petróleo se espalha por setores que dependem da logística rodoviária, especialmente o agronegócio. Além do impacto direto do combustível mais caro no transporte de grãos e no funcionamento de máquinas agrícolas, a escalada das cotações internacionais também pressiona o preço dos fertilizantes.
A produção de insumos como a ureia depende fortemente de gás natural, cuja cotação costuma subir junto com a do barril de petróleo, e de uma cadeia logística intensiva em energia. O Brasil importa grande parte desses produtos, e cerca de 35% da ureia utilizada no país vem justamente do Oriente Médio, o que torna o campo particularmente sensível a crises naquela região.
Contraste com os choques dos anos 1970
Choques econômicos provocados pelo petróleo não são novidade para a economia mundial. O primeiro grande abalo ocorreu em 1973, quando países árabes membros da Opep reduziram a produção em resposta ao apoio ocidental a Israel na Guerra do Yom Kippur, provocando uma disparada histórica nos preços. O segundo choque veio em 1979, após a Revolução Iraniana, que derrubou o xá Mohammad Reza Pahlavi e desorganizou a produção do Irã, então um dos principais exportadores globais.
O episódio atual, porém, encontra um mundo fundamentalmente diferente. Nos anos 1970, o petróleo respondia por quase metade da matriz energética global. Hoje, representa cerca de um terço do consumo. Ao longo das últimas décadas, países diversificaram suas fontes de energia, ampliando o uso de gás natural, fissão e fusão nuclear e, mais recentemente, de renováveis como eólica e solar.
A oferta global também passou a crescer em ritmo superior ao da demanda, impulsionada pela expansão da produção fora do Oriente Médio, sobretudo pelo petróleo de xisto nos Estados Unidos, e por ganhos de eficiência energética. A Agência Internacional de Energia classifica o momento atual como o maior choque de oferta da história. E, ainda assim, não há sinais de convulsão comparável à dos anos 1970.
Resiliência brasileira: uma história de transformação
No Brasil, o contraste com o passado é ainda mais evidente. Na virada dos anos 1970 para os 1980, o país era muito dependente de importações de petróleo, e a escalada dos preços agravou a conta externa justamente quando o governo financiava o crescimento com empréstimos internacionais. Isso acabou contribuindo para o colapso do chamado milagre econômico, acelerou o endividamento externo e mergulhou a economia brasileira numa espiral inflacionária que resultou numa década de baixo crescimento.
Hoje a situação é diversa: o país ampliou significativamente o uso de fontes renováveis e consolidou-se como líder em biocombustíveis e etanol, tecnologias que ganharam impulso justamente nos anos 1970 e que agora ajudam a tornar parte da frota menos vulnerável às oscilações do petróleo. Ao mesmo tempo, o Brasil construiu um estoque robusto de reservas internacionais, na casa de 358 bilhões de dólares, ampliando sua margem de manobra diante de turbulências externas.
"Sustentar crescimento com estabilidade inflacionária não é tarefa simples", observa Cristina Helena Pinto, professora da PUC-SP. "Mas a combinação de fatores coloca o Brasil em posição mais confortável do que há meio século."
Em um mundo ainda dependente do petróleo, conflitos no Golfo Pérsico raramente ficam restritos ao campo de batalha. Contudo, a diversificação energética global e a maior resiliência de economias como a brasileira tornam o cenário atual menos catastrófico que os traumáticos choques dos anos 1970, mesmo diante de preços elevados e incertezas geopolíticas persistentes.



